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Primeiro culto protestante no Brasil

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O primeiro culto

No dia 10/03/1557 realizou-se o primeiro culto protestante no Brasil. Nós sabemos que no evento da descoberta, em Porto Seguro, BA, houve a primeira missa católica (realizada no quarto domingo de abril de 1500, pelo frei Henrique Soares de Coimbra). Mas entenda como foi este primeiro culto, onde e porque ele ocorreu e quais resultados deixaram na nossa nação.

Coube aos irmãos da Igreja reformada francesa este feito: o de ter realizado o primeiro culto evangélico na história do Brasil e das Américas. Esse evento singular ocorreu em 10/03/1557, numa pequena colônia fundada pelos franceses na baía de Guanabara, atual ilha de Villegagnon (aquela ilha que fica ao lado do aeroporto Santos Dumont, na cidade do Rio de Janeiro, onde atualmente fica a Escola Naval, um centro de formação de oficiais de marinha, mantida pela Marinha do Brasil). O nome desta ilha é uma homenagem ao comandante francês Nicolas Durand de Villegagnon.

Villegagnon

Em novembro de 1555 uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571) chegou à Baía da Guanabara e implantou uma colônia que ficou conhecida como França Antártica.
Esse empreendimento contou com o apoio do almirante Gaspard de Coligny (†24-08-1572), influente estadista e futuro líder dos calvinistas franceses, os huguenotes. Sendo inicialmente simpático à causa da Reforma e procurando elevar o nível moral e espiritual da sua colônia, Villegaignon escreveu a João Calvino solicitando o envio de colonos protestantes. A Igreja Reformada de Genebra atendeu prontamente ao pedido, enviando um grupo de evangélicos sob a liderança de dois pastores, Pierre Richier e Guillaume Chartier.

A nova expedição chegou à Baía da Guanabara no dia 7 de março de 1557. Três dias depois, a 10 de março, uma quarta-feira, os colonos desembarcaram na pequena ilha (Forte Coligny) e realizaram o primeiro culto protestante no Brasil e possivelmente no Novo Mundo.

O oficiante foi o pastor Pierre Richier, que, acompanhado de todos, cantou o Salmo 5 (hino 122 do Hinário Presbiteriano:  “À minha voz, ó Deus, atende”). Em seguida, o referido pastor pregou um sermão sobre o Salmo 27.4: “Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei, que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo.” Após o culto, os huguenotes tiveram sua primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho. Dormiram em redes, à maneira indígena.

Santa ceia

A Santa Ceia, segundo o rito reformado, foi celebrada pela primeira vez no domingo, 21 de março de 1557. Após a celebração da Santa Ceia, conforme as doutrinas reformadas, os missionários foram questionados por Villegagnon, que influenciado pelo ex-dominicano Jean Cointac, passou a entrar em atrito com os calvinistas sobre uma série de questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. Basicamente a controvérsia envolvia a questãos da tansubstanciação dos elementos da ceia, sem contar a discussão que houvera nos dias anteriores à essa ceia, sobre misturar água no vinho.

Ele inicialmente proibiu aos reformados a celebração da eucaristia, depois as pregações e finalmente as reuniões de oração. O pastor Pierre Richier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada. A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os índios tupinambás, aos quais procuraram evangelizar, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Entre esses reformados estava o sapateiro Jean de Léry, que mais tarde escreveu um valioso relato dessas experiências, intitulado História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, publicado em Paris em 1578. Em seu livro, Léry não somente fornece informações sobre a natureza, a fauna e a flora de um Brasil ainda intocado pela civilização branca, mas descreve de maneira singularmente perspicaz e objetiva os mais variados aspectos da cultura indígena.

Os missionários frustrados tentaram voltar à frança, quando vendo um navio francês, passando pela baia de Guanabara, pegaram uma “carona”, mas logo em seguida, quando o barco ameaçou naufragar, cinco calvinistas ofereceram-se para voltar à terra. Estes cinco – Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur – foram prontamente aprisionados por Villegaignon, que apresentou-lhes uma série de questões teológicas e exigiu uma resposta por escrito dentro de doze horas. Esses leigos redigiram um notável documento, conhecido como Confissão de Fé da Guanabara, que finalmente custou as suas vidas.

Confissão de Fé da Guanabara

A Confissão foi redigida para responder aos questionamentos de Nicolas Durand de Villegagnon, apelidado pelo pastor Pierre Richier, em 1561, de “Caim das Américas”. O documento foi redigido em cerca de doze horas numa prisão na ilha Villegagnon), por Jean du Bordel (ou Bourdel), com o auxílio de Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André la Fon. Contém dezessete artigos, refletindo a doutrina calvinista.

Após a sua finalização, os seus autores foram executados. Não está claro se Jacques Le Balleur teve envolvimento na redação da Confissão, já que a data exata de sua fuga não é conhecida. Esta declaração de fé ficou conhecida como a confissão da Guanabara

Diante da recusa dos calvinistas em abjurar as suas convições, Villegaignon condenou-os à morte. Bourdel, Verneuil e Bourdon foram estrangulados e lançados ao mar. Era o dia 9 de fevereiro de 1558. André Lafon, sendo o único alfaiate da colônia, teve a vida poupada sob a condição de que não divulgasse as suas idéias religiosas.

Jacques Le Balleur

Jacques Le Balleur fugiu para o continente, indo parar em São Vicente, onde pregou as suas convicções. Por insistência dos jesuítas, foi levado para a capital colonial, Salvador, onde esteve aprisionado por vários anos (1559-1567). No dia 20 de janeiro de 1567, quando os portugueses celebravam a vitória sobre os índios tamoios e colonizadores franceses, Jacques le Balleur foi enforcado, por ordem de Mém de Sá, com a assistência do padre José de Anchieta. Jacques le Balleur chegou à Guanabara na primeira expedição dos franceses.

França Antártica

Política e ideologicamente, o empreendimento francês foi obviamente um fracasso, não tendo sido adequadamente concebido em termos de seus propósitos, tanto seculares quanto religiosos. Em especial, a questão religiosa, não tendo sido resolvida na França, não o poderia ser no Brasil.
Todavia, o experimento, apesar do seu trágico desfecho, tem grande valor para a história do protestantismo, em virtude do seu caráter pioneiro. A França Antártica foi a primeira tentativa de implantação de uma igreja reformada e de um trabalho missionário protestante na América Latina.
O heroísmo dos mártires calvinistas tem inspirado sucessivas gerações de evangélicos no Brasil e no mundo. Em 24 de março de 2007, foi inaugurado um marco na ilha em memória destes acontecimentos.

Vermelho Brasil

Se desejar conhecer mais sobre a história da frança no Brasil, assista o filme “Vermelho Brasil”. Baseado no livro do escritor francês Jean-Christophe Rufin. O filme Vermelho Brasil conta a história da expedição de Nicolas Durand Villegaignon ao Brasil por volta do ano 1550, e sua luta para criar uma colônia francesa em solo brasileiro.
O filme Vermelho Brasil é uma superprodução Internacional entre França, Brasil, Portugal e Canadá, e a TV Globo o exibiu em 02/03/2015 em comemoração pelos 450 anos da fundação da cidade do Rio de Janeiro.


Veja outras matérias neste site:
A primeira confissão de fé feita na América
Breve história do protestantismo no Brasil
Fontes:

  • AUGERON. Mickaël, “Célébrer les Martyrs de la Guanabara : Rio de Janeiro, lieu de mémoire pour les communautés presbytériennes du Brésil”, Mickaël Augeron, Didier Poton, Bertrand Van Ruymbeke, dir., Les huguenots et et l’Atlantique, vol. II : Fidélités, racines et mémoires, Paris, Les Indes savantes, 2012, p. 405-419.
  • CRESPIN, Jean. A tragédia da Guanabara: Historia dos Protomartyres do Christianismo no Brasil. tradução: DOMINGOS RIBEIRO – Typo-Lith, Pimenta de Mello & C : Rio de Janeiro, 1917
  • FOXE, John. O livro dos Mártires. Publicações Pão Diário : Curitiba, 2021
  • LÉRY, Jean deHistoria de uma viagem a terra do Brasil.
  • MATOS, Alderi Souza de. A “França Antártica”: Primeira Presença Calvinista no Brasil.

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