Saúde mental e transtornos
Introdução – Saúde é um estado de bem estar físico, psíquico, social e espiritual. Saúde mental pode ser definida de diversas maneiras:
- – Ausência de sintomas e sinais que indiquem um transtorno mental.
- – Adotar sempre comportamentos considerados adequados pela sociedade.
- – Não sentir preocupações e culpa.
- – Ter competência pessoal para resolver problemas.
- – Aceitar a si mesmo e desenvolver atividades que dêem sensação de auto-realização.
- – Ter capacidade para agir de modo integrado, unificado e organizado.
- – Ter a mente aberta e flexível com adaptação às mudanças e novidades.
Todas estas definições têm prós e contras, vantagens e desvantagens, limitações teóricas e influências ideológicas. Uma pessoa com a mente saudável deve ser capaz de pensar com clareza, resolver os diversos problemas de sua vida, manter bons relacionamentos com os amigos, colegas e familiares, sentir bem estar espiritual, ser feliz e capaz de trazer felicidade à vida dos outros. Além disso, mente e corpo não são separados, de tal forma que a saúde física afeta a mental.
Nesta apostila, consideraremos saúde mental a ausência de sintomas e sinais. Estes fazem parte de síndromes2 que ajudam a identificar os transtornos mentais. Os transtornos mentais são muito freqüentes, estando presentes em pelo menos uma de cada cinco pessoas. Isto significa que o Conselheiro Pastoral irá encontrá-Ios no dia-a-dia do seu trabalho. Um capelão, exercendo seu ministério em um hospital, encontrará até 50% das pessoas a quem estiver ministrando com algum transtorno mental.
O Banco Mundial, em estudo sobre as dez principais doenças que mais trazem prejuízo econômico e social, mostrou que cinco transtornos mentais estão nessa categoria. São eles: uso de álcool, esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno obsessivo compulsivo e depressão. Isto significa que, além de freqüentes, trazem muito sofrimento ao portador, sua família, amigos e à sociedade em geral.
É importante o conselheiro saber identificar esses transtornos, dar um encaminhamento adequado e os cuidados pessoais e espirituais necessários. Estes problemas de saúde têm tratamento e, se identificados prontamente, o resultado será melhor e as conseqüências menos prejudiciais. Alguns transtornos observados são às vezes interpretados como problemas de natureza espiritual, pecado ou, até possessão demoníaca. Não são! Na verdade, são de origem biológica e psicológica, como qualquer outra doença. Rotular a pessoa de pecadora, possessa ou endemoniada só aumenta seus problemas, a vergonha e o estigma de ser portadora de um problema de saúde mental.
I – SINTOMAS QUE PODEM INDICAR UM TRANSTORNO MENTAL
Os sintomas de um transtorno mental podem ser:
- físicos (dores, tensão muscular, cansaço, falta de apetite, sonolência ou insônia, por exemplo),
- sentimentos desagradáveis (ficar assustado ou muito triste, irritação, culpa exagerada, euforia sem motivo);
- pensamentos (dificuldade de raciocínio e de tomar decisões, sentir-se observado ou perseguido, idéias fantásticas ou bizarras sobre os acontecimentos, pensar em acabar com a própria vida, preocupações);
- comportamentos (ficar muito agitado ou parado, quebrar objetos ou falar de modo agressivo, tentar suicídio, gastar exageradamente, não se alimentar, beber, usar drogas);
- sensações diferentes (ouvir vozes, ver coisas, cheiros, gostos que os outros não conseguem perceber, sensações estranhas ou bizarras na pele).
Esses sintomas têm relação uns com os outros e aparecem agrupados: são as Síndromes. Por exemplo, um indivíduo pode ouvir pessoas conversando sobre ele, achar que corre perigo e recusar-se a sair do quarto por medo. Esta Síndrome pode ser parte de uma depressão, ou de um transtorno delirante, ou, até de uma esquizofrenia. Cabe ao médico examinar e pesquisar outros sintomas e sua evolução para estabelecer qual é o transtorno que prejudica a saúde da pessoa.
As Causas
Os transtornos mentais são doenças de causa complexa. Muitos motivos e explicações acontecem simultaneamente para desencadeá-Ios. Os principais fatores são:
- Estresse – os acontecimentos da vida podem deixar uma pessoa preocupada e em sofrimento pela impossibilidade de resolvê-Ios. Os principais são desemprego, morte de alguém próximo, dificuldades econômicas, solidão, conflitos conjugais, violência e experiências traumáticas. Um fato pode ser um estresse para uma pessoa e não o ser para outra.
- Família de origem complicada – infância infeliz por violência, abuso sexual e negligência tornam a pessoa mais vulnerável e facilita depressão e ansiedade na vida adulta.
- Lesão cerebral – muitas doenças estão associadas a mudanças químicas no cérebro ou alterações nos neurotransmissores. Portanto infecções, AIDS, traumatismos cranianos, derrames podem facilitar retardo mental, demências e problemas emocionais.
- Hereditariedade – a genética é fator importante para muitos transtornos mentais. Entretanto, essas doenças não seguem as leis de Mendel, são genes de penetrância incompleta, que só se manifestam se o ambiente for propício. Assim, ter um pai ou mãe com problema mental traz um risco muito pequeno do filho tê-Io também.
- Problemas médicos – Doenças físicas como problemas nos rins ou fígado, certos medicamentos e uso de álcool e drogas podem desencadear transtornos mentais.
II – PRINCIPAIS TRANSTORNOS MENTAIS
Os principais transtornos podem ser classificados em seis categorias:
- transtornos do sentimento: depressão e ansiedade;
- doenças mentais graves (psicoses);
- uso de álcool e drogas;
- problemas mentais no idoso;
- problemas mentais na infância;
- dificuldades de aprendizado (retardo mental).
Transtornos do Sentimento
Depressão
Problema de saúde mental muito comum. O conselheiro pastoral, com certeza, irá se deparar com pessoas assim no seu ministério.
Durante uma depressão a pessoa apresenta os seguintes sintomas:
- muita tristeza a maior parte do dia, quase todos os dias;
- perda acentuada da capacidade de sentir prazer e interesse;
- perda ou aumento de peso sem estar em dieta;
- diminuição da vontade sexual;
- Insônia ou sonolência excessiva quase diariamente;
- ficar muito inquieto ou parado;
- fadiga, cansaço ou perda de energia; sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva; sentimentos de desesperança;
- pouca auto-estima;
- isolamento;
- baixa concentração e dificuldade para tomar decisões;
- pensamentos recorrentes sobre morrer ou suicídio.
É preciso lembrar que a depressão é uma doença que mata. O sofrimento e a falta de esperança e saída são tais que a pessoa pensa em acabar com sua vida.
Algumas das falsas crenças sobre suicídio estão alistadas abaixo:
| Mito | Realidade |
| Pacientes que falam sobre suicídio raramente o cometem |
Pacientes que comecem suicídio geralmente mostraram um jndício anteriormente. Ameaças devem ser sempre encaradas com seriedade. |
| Perguntar sobre suicídio para um paciente pode provocar ações suicidas | Perguntar sobre o suicídio possivelmente reduzirá a ansiedade, o paciente pode se sentir mais aliviado. |
| Pacientes suicidas têm a intenção absoluta de morrer | A maioria é ambivalente |
| A melhora após a crise significa que o risco acabou | Muitos suicídios ocorrem no período da melhora |
| O suicídio não pode ser evitado. | A maioria é possível prevenir. |
| Idéias de suicídio são permanentes. | Pensamento suicidas podem passar e retornar. A maioria das pessoas depois de tratadas, nunca mais os terão. |
Quadro 1. Mitos e realidades sobre comportamento suicida
Diante de uma pessoa com depressão é sempre importante perguntar sobre idéias de suicídio, avaliar seu perigo e estabelecer medidas de proteção e tratamento.
As seguintes perguntas podem ajudar:
- Você se sente infeliz ou sem esperança?
- Você se sente desesperado?
- Você se sente incapaz de encarar o dia-a-dia?
- Você sente que a vida é um fardo?
- Você sente que é um peso para seus familiares?
- Você acha que não vale a pena viver?
- Você tem pensado em morrer, ou que a vida não vale a pena?
- Tem orado (rezado) para Deus o levar?
- Você tem pensado em acabar com sua vida?
- Você tem vontade de cometer suicídio?
- O que está passando por sua mente?
Diante de uma pessoa com ideação suicida o conselheiro pode tomar as medidas sugeridas no quadro 3.
| O que pode ser feito | O Que não deve ser feito |
| Ouvir, mostrando empatia, e permanecer calmo | Ignorar a situação |
| Ser cuidadoso e oferecer apoio | Mostrar-se chocado ou em pânico |
| Levar a informação à sério e avaliar o grau de risco |
Falar que tudo ficará bem … |
| Perguntar sobre tentativas prévias | Desafiar a pessoa para seguir em Frente |
| Explorar possibilidades outras que o suicídio |
Fazer o problema parecer trivial |
| Perguntar sobre planos futuros e razões por que viver |
Concordar que não há saída |
| Fazer um contrato | Guardar segredo |
| Identificar fontes de apoio: família, amigos, colegas, etc |
Deixar a pessoa sozinha |
| Remover se possível os meios | Deixar remédios, armas com a pessoa |
| Tomar uma atitude, avisar familiares, encaminhar para avaliação médica |
|
| Se o risco for alto, ficar com a pessoa até que ela receba ajuda especializada |
Quadro 3. O que pode e o que não pode ser feito.
Uma pessoa com risco de cometer suicídio não deve ficar só. É necessário que alguém da família saiba, e que seja encaminhada para tratamento especializado. A depressão pode assumir formas diversas, ser recorrente na vida da pessoa e ter duração variada, embora o mais comum seja ser prolongada. Hoje há tratamento eficaz para a maioria dos seus episódios. Os principais tratamentos são os remédios antidepressivos, as psicoterapias comportamentais cognitiva e interpessoal e a eletroconvulsoterapia.
Ansiedade
Sentir ansiedade é uma experiência normal. O problema é quando ela se torna patológica, doentia. A pessoa sente muito medo e apreensão desproporcional aos motivos, ou sem motivo, não consegue se distrair e afastar pensamentos e sentimentos. Essas sensações são acompanhadas de alguns sintomas físicos: o coração dispara, aparecem ondas de suor, falta de ar, arrepios, tontura, tremor, formigamentos nas mãos e pés, tensão muscular com dores principalmente na cabeça e costas.
Os principais sintomas da ansiedade patológica são:
- Preocupação exagerada, desconfortável e que a pessoa não consegue controlar.
- Ataque de pânico – repentinamente o coração dispara, falta o ar, o corpo trepida ou treme e a pessoa tem a sensação de estar perdendo o controle, ficando louca, ou morrendo. Dura alguns minutos e passa, mas pode acontecer várias vezes.
- Fobias – A pessoa evita situações onde acha que vai passar mal ou que lhe desencadeiam mal-estar. Pode evitar lugares abertos ou fechados, de onde acha difícil sair,
- situações nas quais possa ser olhada ou avaliada por outros, pequenos animais, procedimentos médicos, sangue e ferimentos, tempestades, altura, etc.
- Obsessões e compulsões – pensamentos repugnantes que invadem a mente contra a vontade da pessoa trazendo desconforto (dúvidas, sensação de estar contaminado, blasfêmias) chamados de obsessões. A pessoa procura afastá-Ios pelas compulsões, rituais e comportamentos repetitivos (lavar as mãos por horas, verificar se tudo está em ordem, rezar, arrumar e ordenar objetos pessoais, colecionar).
A ansiedade pode ser tratada com psicoterapia, principalmente a comportamental cognitiva e medicamentos com ação sobre a se roto nina. Relaxamento e meditação podem também ajudar.
III – TRANSTORNOS MENTAIS GRAVES
Conhecidos pelo nome de psicose, são considerados graves, pois muitas vezes a pessoa tem a relação com a realidade comprometida. Grandes mudanças surgem no seu pensamento, imaginação, sentimentos e auto controle.
Os principais sintomas são:
- Delírios – Idéias fora da realidade, que não mudam após explicações. A pessoa as apresenta com grande convicção. Por exemplo, idéias de estar sendo perseguida, observada, ciúmes doentio, grandeza, culpa exagerada, ser portador de alguma doença estranha não identificada pelos médicos.
- Alucinações – A pessoa ouve barulhos, vozes comentando suas ações ou conversando entre si, vê luzes, aparições, sente odores, gostos, infestações de bichinhos sobre sua pele.
- Desagregação – A conversa fica sem sentido, uma frase ou palavra não tem nexo lógico com o seguinte.
- Emoções inadequadas – os sentimentos perdem a relação com os acontecimentos. Risos e choros surgem sem motivo ou em desacordo com o que está acontecendo.
- Euforia ou Mania – A pessoa apresenta, durante semanas, aumento da atividade ou inquietação, fala mais que o habitual e de modo inconveniente, fica mais desinibida com comportamento inadequado às circunstâncias, pensamento muito acelerado, idéias de grandiosidade (inteligência maior, riqueza, poderes especiais, prática de curas e conhecimentos especiais), redução da necessidade de sono, distração ou mudança constante de planos e atividades, comportamento inadequado, ou descuidado, e cujo risco não é percebido pelo sujeito (guiar de modo agressivo, gastos exagerados, aumento da vontade sexual ou indiscrições sexuais).
- Delirium – principalmente os que trabalham em ambiente hospitalar, visitando pessoas em Unidade de Terapia Intensiva ou após uma cirurgia. A pessoa é encontrada desorientada, trocando o dia pela noite, com alucinações visuais, agitação ou quietude excessiva, confusão mental (a conversa é incoerente), e variação dos sintomas ao longo do tempo (ora está bem, ora está confusa ou agitada).
As principais síndromes são a esquizofrenia, os transtornos delirantes e o transtorno bipolar e o delirium. Estas doenças precisam de atendimento especializado e melhoram com remédios específicos ou com o tratamento da causa.
Abuso e dependência de álcool e drogas
Infelizmente são problemas muito comuns no Brasil, que detêm o triste recorde de maior consumidor de bebidas destiladas.
A pessoa dependente perde o controle sobre o uso de uma substância, passando a vida a girar em torno de obter, consumir e se recuperar do uso de uma ou mais substâncias. Algumas produzem sintomas de abstinência, que surgem quando a pessoa interrompe o uso e desaparecem assim que ela é ingerida. A pessoa fica escrava da droga.
No abuso, a pessoa não está dependente, mas faz um uso que a prejudica, ou coloca a sociedade em risco, mesmo assim a pessoa continua consumindo a substância. Um exemplo disso é ter uma doença física ou mental pelo uso e continuar a fazê-Io. Com o abuso a pessoa pode perder amigos, ter problemas no trabalho ou com a polícia, e mesmo assim continuar usando.
As substâncias mais comuns atualmente são o álcool, os solventes (colas e esmaltes), a maconha, a cocaína, os derivados de anfetamina, e os calmantes.
O conselheiro deve sempre lembrar de perguntar:
- Como você usa bebida alcoólica?
- Sua família ou amigos ficam preocupados ou o incomodam com a maneira que você bebe?
- Se você fica sem beber, passa mal? Precisa beber para aliviar?
- Você já tentou parar de beber?
- Você está usando alguma droga?
Doenças dos idosos
São principalmente a depressão e as demências. A depressão é semelhante à de outras idades e acomete principalmente o idoso com problemas de saúde, dificuldades econômicas, incapacidade física e solidão.
Uma pessoa com demência pode apresentar:
- Idade, em geral, acima dos sessenta anos.
- Esquecer coisas Importantes, como nomes de familiares ou amigos.
- Ficar desorientado ou perdido em locais conhecidos, perto de casa.
- Irritação fácil.
- Ficar isolado ou parecer deprimido
- Rir e chorar sem motivo.
- Dificuldade para acompanhar uma conversa.
- Não saber a data de hoje, ou onde está.
- Conversas inadequadas ou irracionais.
O diagnóstico precoce de demência é fundamental, pois alguns desses quadros são reversíveis. No caso da Doença de Alzheimer medicamentos podem ajudar a melhorar e atrasar a progressão dos sintomas.
Problemas de saúde mental na infância
Os sinais típicos que sugerem que uma criança está tendo problemas de saúde mental são:
- Ir mal na escola, mesmo com inteligência normal.
- Uma criança sempre muito inquieta e que não consegue prestar atenção.
- Problemas freqüentes de relacionamento com os colegas, por ser muito briguenta e irritada.
- Criança que fica muito isolada, não brinca ou interage com as outras.
- Recusa ir à
Crianças podem ter problemas mais graves como psicoses e autismo, felizmente são mais raros.
Dificuldades de aprendizagem
Também conhecido por retardo mental. Condição presente na infância e que continua durante a vida adulta. O desenvolvimento do cérebro não aconteceu como deveria as habilidades mentais e capacidades são menores ou desenvolvem mais lentamente. A pessoa é trazida para o aconselhamento por ter dificuldade de aprendizado; não se adaptar bem a situações novas; não cuidar de si mesma adequadamente e por envolvimento em brigas.
O PAPEL DO CONSELHEIRO
O conselheiro deve atender as necessidades espirituais destes pacientes e de seus familiares. Ao ajudar na identificação precoce destes sintomas e sinais, encaminhando a pessoa para atendimento adequado, dá imensa contribuição para que a recuperação seja mais rápida. Programas preventivos realizados nas igrejas podem melhorar o relacionamento de casais e de famílias, apoiar grupos vulneráveis como mulheres com filhos pequenos, desenvolver a auto-estima e a capacidade de resolver problemas de crianças e adolescentes, e cuidar de idosos com demência, dando tempo para que o familiar cuidador possa recuperar suas energias.
É importante a igreja saber acolher estas pessoas. Algumas têm dificuldade de integração e de fazer amizades. Estamos diante das pessoas mais frágeis de nossa sociedade, que mais precisam de apoio e cuidado. Quando os recebem, têm possibilidade de viver em abundância, contribuindo para a vida da igreja de modo pleno.
A seara é enorme, mas as possibilidades de ministério criativo e abençoado também!
Trabalho apresentado para o curso de Psicanálise Clínica na AEP – Associação Evangélica de Psicanalistas pelo pastor Elton Melo e miss. Ionice Melo, em junho de 2015.