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Entre pacifismos e belicismos: um panorama sobre a guerra e teologia protestante ao longo da história

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Deve um crente se alistar nas fileiras militares em uma guerra? Deus é amor mesmo? Afinal, por que tanta violência existe no mundo? Essas perguntas são sempre presentes na vida de todos os cristãos em ambientes secularizados, pós-modernos… no trabalho, na escola, na universidade, entre os parentes que não comungam da mesma fé que carregamos no coração. Perguntas que muitas vezes são feitas em tom desafiador. Como compreender tantas guerras em nome de Deus?

A proposta desse texto não é responder a essas perguntas do ponto de vista bíblico com seus diversos personagens guerreiros e as suas trajetórias. Mas, singelamente, contemplar como alguns teólogos, das mais diferentes tradições do protestantismo, compreenderam e refletiram sobre essa questão nos cinco séculos da nossa tradição de fé.

Para tanto, buscou-se pautar a descrição como uma abordagem histórica. Porém, também cotidiana, relacionando as diferentes interpretações e tradições com a sua presença no Brasil. As diferentes compreensões da questão militar, por vezes elaboradas há séculos, pautam ainda no presente as ações dos indivíduos. Afinal, vivemos em um país com serviço militar obrigatório para todos os rapazes que completam dezoito anos de idade.

Teologia, História e Guerra

Teologia e História são especialidades diferentes do pensamento ocidental, mas que partilham aspectos comuns. Essa é a reflexão sobre a relação entre teólogos e historiadores apresentadas pelo historiador contemporâneo alemão Jöhn Rüssen, que ao refletir sobre a relação entre estas duas disciplinas do conhecimento humano, afirmou que a principal diferença entre o labor do teólogo e o do historiador é que “A ciência histórica, como toda e qualquer ciência, é especialmente alheia a Deus” (RÜSEN, 2014, p.161). Por sua vez, a teologia do século XX, no nome de um dos seus principais expoentes, o teólogo reformado Karl Barth, em A Carta aos Romanos, também escreveu que a teologia pode ser feita alheia à história:

História é o jogo das supostas vantagens do Espírito e da força de algumas pessoas em relação a outras, a luta pela sobrevivência hipocritamente dissimulada pela ideologia do direito e da liberdade, o ir e vir de antigas e novas justiças humanas, que se sobrepujam reciprocamente em solenidades e futilidades. O juízo de Deus é o fim da história. Uma gotícula de eternidade tem peso maior que todo o oceano de coisas sujeitas ao tempo. (BARTH, 2016, p.114).

Assim, faz-se importante deixar claro que apesar do aspecto pretencioso do título (Guerra e Teologia Protestante ao Longo da História), está-se observando apenas que as ideias religiosas se vinculam a determinadas práticas sociais. Práticas e posturas que são nossas, de nossos parentes e amigos, de nossa denominação ou de outro grupo evangélico.

Pode-se compreender que a Reforma já no século XVI foi marcada pela pluralidade, pois, naquele século surgiram os quatro grandes grupos protestantes: luteranos, calvinistas, batistas e anglicanos. As diferenças teológicas entre esses grupos são significativas, chegando ao ponto de se expressar duas grandes vertentes religiosas advindas com a Reforma: a Reforma Magisterial e a Reforma Radical (GEORGE, 2013, p.324).

A Reforma Magisterial, empreendida por Martinho Lutero e João Calvino, tivera como proposta uma nova visão de igreja, com uma profunda influência dos escritos patrísticos de Santo Agostinho. Por sua vez, a Reforma Radical, como o termo sugere, aprofundou os conceitos principais dos reformadores, em especial a ideia de sacerdócio de todos os crentes e a oposição ao batismo infantil. Por vezes, a Reforma Radical é relacionada ao reformador alemão Thomaz Müntzer, (DELUMEAU, 1989, p.100-106) líder de uma revolta armada da qual Lutero se opôs.

Porém, outros grupos de anabatistas foram pacifistas, como o exemplo dos seguidores de Menno Simons, os menonitas, que tradicionalmente se negaram ao serviço militar, motivo pelo qual tiveram problemas nos diversos Estados Nacionais nos quais viveram (WEBER, 2004, p.38). Contrário à posição pacifista, o cristianismo Reformado e Evangélico defende a moralidade da profissão militar.

Reforma Magisterial

Como iremos observar as denominações ligadas a Reforma Magisterial – as luteranas, presbiterianas, metodistas e congregacionais – tendem a apresentar uma visão favorável da guerra, enquanto as ligadas a Reforma Radical e suas derivadas — as menonitas, adventistas e os Testemunhas de Jeová — apresentam a tendência de um posicionamento contrário a presença dos cristãos nos combates.

Os contextos são fundamentais para a compreensão dos eventos históricos. A guerra, enquanto parte das relações políticas entre os Estados, possui características especiais nas diferentes épocas do passado da humanidade. Hoje, os conflitos militares apresentaram a triste novidade de estarem ligados diretamente ao desenvolvimento da indústria, por sua vez ligado a um ramo especial do campo de conhecimento científico aplicado na produção industrial, a engenharia bélica.

Outro dado que mudou as características dos combates foi a imposição do Serviço Militar Obrigatório para a população masculina. Por essa razão as guerras se tornaram uma questão de toda a nação e não apenas dos militares, tendo o século XX apresentado a triste novidade da Guerra Total. Isso porque grupos sociais que tradicionalmente não participavam efetivamente dos combates, como mulheres, crianças e idosos, passaram a sofrer com as consequências dos conflitos militares. Nesse sentido, a pergunta que foi novamente colocada pelos teólogos do século XX diz respeito à justiça ou improbidade de se matar o próximo em um combate.

Perguntas como esta possibilitam contemplar que há na guerra uma constante no que se refere ao seu relacionamento enquanto evento humano com a religião cristã: uma relação de permanente tensão. Entre o campo político e o campo religioso existe um conflito no que se refere à questão da guerra porque para o cristianismo ela é encarada como um mal ao ferir o mandato divino do “não matarás” (Êxodo 20), que faz parte das principais ideias cristãs. Tal questão foi abordada pela patrística, cuja legitimação para a guerra foi tratada por meio da noção de Guerra Justa, elaborada por Santo Agostinho em A Cidade de Deus (Agostinho, 2008, p.51) e, como veremos, reproduzida pelos reformadores.  Afirmou o Bispo de Hipona:

Algumas vezes, seja como lei geral, seja por ordem temporária e particular, Deus ordena o homicídio. Ora, não é moralmente homicida quem deve à autoridade o mandato de matar, pois não passa de instrumento, como a espada com que fere. Desse modo, não infringiu o preceito quem, por ordem de Deus, fez guerra ou, no exercício do poder público e seguindo as leis, quer dizer, segundo a vontade da lei mais justa, puniu de morte criminosos; assim também não acusam Abraão de crueldade, mas gabam-lhe piedade, quando, assassino por obediência, quer matar o filho (Agostinho, 2008, p.51).

A tensão entre a guerra e a ideia de um Deus amoroso estão presentes, em especial, por todo o sofrimento que o homicídio não punido pelo Estado Nação, mas por ele promovido, causa nos indivíduos. A dor das mães que pedem seus filhos. A dor de crianças que ficam órfãs, somado a dor de consciência dos soldados, marca o sofrimento que os combates trazem. Por isso, a guerra faz parte da teodiceia cristã, o campo da teologia surgido no século XVIII com Leibniz e que trata de explicar a razão do mal ser presente na humanidade e a sua relação com Deus.

Guerra e Reforma Magisterial

Ao pensarmos no campo religioso cristão protestante, um dos principais textos para compreender a teologia proposta pelos reformadores é um pequeno escrito de Lutero denominado Da Liberdade Cristã no qual o reformador apresenta a dialética cristã de ser livre e escravo concomitantemente: “livre pela fé em Deus e escravo pelo amor ao próximo” (LUTERO, 2009, p.47-48).

Nesse escrito, são apontadas algumas teses centrais defendidas por todos os protestantismos ao redor do mundo, como a centralidade da Bíblia, o sacerdócio de todos os crentes além da salvação compreendida como uma graça divina que pode ser alcançada mediante a fé. Porém, outros pontos como o significado do batismo e da Santa Ceia são pomos de discórdia entre as diferentes correntes, uma polêmica que se iniciou já no século XVI, com o célebre debate entre Lutero e Zuínglio sobre a Ceia do Senhor (MATOS, 2008, p. 147).

Guerra dos camponeses

Para Martinho Lutero, personagem principal do surgimento do protestantismo enquanto proposição religiosa cristã, a guerra poderia ser ação válida para os cristãos. O contexto de sua produção teológica sobre os conflitos bélicos era o da Guerra dos Camponeses, na qual Lutero, em grande parte baseado na carta da Paulo aos Romanos (Romanos-13), afirmou que os súditos deveriam obediência aos reis, pois (segundo o apóstolo Paulo) todo homem deve estar sujeito à autoridade. No texto Se Também os Militares Ocupam Função Bem-Aventurada, Lutero argumentou que:

Por isso os sábios resumiram e dividiram toda a obra humana em dois tipos: agriculturam e militiam, ou seja agricultura e atividade militar, uma divisão que dá naturalmente por si mesma. A agricultura deve alimentar, a atividade militar deve defender, sendo que aqueles que estão no ofício militar devem receber sua renda e seu sustento daqueles que se encontram na atividade alimentar, para que possam exercer a defesa. Em contrapartida, aqueles que estão na atividade alimentar devem receber proteção daqueles que estão na atividade militar para que os possam sustentar. O imperador ou príncipe do território deve cuidar de ambos os ofícios e atentar para que as pessoas que estão na atividade militar estejam armadas e alertas, e aquelas na atividade alimentar se dediquem honestamente à melhoria do sustento. (LUTERO, 1996, p.393)

As denominações que possuem como base as ideias do reformador Martinho Lutero demonstram a tendência de apresentar uma postura favorável às guerras e à profissão militar. Interessante notar que a perspectiva luterana de legitimação das guerras perpassa a moral do trabalho. Pois, a guerra pode ser uma atitude válida, apenas se for expressão de um trabalho que apresenta utilidade para a coletividade.

Os luteranos no Brasil

No Brasil, as igrejas que seguem linha luterana estão presentes no país há aproximadamente dois séculos. Um primeiro luterano a pisar o solo brasileiro ainda no século XVI foi o artilheiro Hans Stadem. Todavia, foi no século XIX que tivemos a presença luterana de modo efetivo no país, a partir de 1824, quando imigrantes teuto-suíços de Confissão Luterana se fixaram em Nova Friburgo, no interior fluminense e alemães luteranos em Novo Hamburgo, no interior sul-rio-grandense. Como principais grupos luteranos no Brasil podemos citar a IECLB- Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e a IELB- Igreja Evangélica Luterana do Brasil (JÚNIOR, 2014, p.87-104).

A teologia Calvinista sobre a guerra

João Calvino, assim como Martinho Lutero, apresentou em As Institutas uma reflexão sobre a guerra, apresentando-as como biblicamente lícitas:

Pois, porventura não se faz diferença alguma se um rei ou alguém da mais baixa ralé invade uma região alheia, em relação à qual nada tem de direito, e a oprime hostilmente, todos devem igualmente ser tido por ladrões e punidos. Portanto, dita não apenas a equidade natural, mas também a natureza do corpo, que os príncipes são armados não apenas para que, com penas judiciárias, os malfeitos particulares sejam coibidos, mas também para que, pela guerra, os domínios confiados a sua proteção sejam defendidos, caso sejam a qualquer tempo hostilmente atacados. O Espírito Santo, igualmente, nos declara na Escritura que tais guerras são lícitas e justas. (CALVINO, 2006, p.463)

O calvinismo apresenta uma legitimação do poder do Estado, buscando o vincular à prática da justiça. Apesar de distante dos Alpes, a primeira tentativa de se estabelecer uma comunidade protestante calvinista no território brasileiro ocorreu ainda no século XVI, quando do episódio da França Antártica, no qual huguenotes buscaram se instalar no Rio de Janeiro, tendo os protestantes escrito a Confissão de Fé da Guanabara.

Nesse evento da história brasileira, tivemos a presença de capelães oriundos de Genebra, sendo a principal causa do fracasso do empreendimento a polêmica teológica referente à ceia do senhor, pela qual os protestantes acusavam os católicos de canibalismo, ao considerar a hóstia como o verdadeiro corpo de cristo (MENDONÇA, 1995, p.24).

Uma segunda tentativa de se instalar o protestantismo ocorreu quando da presença holandesa no Nordeste. Nessa experiência protestante do século XVII, tivemos a presença de uma comunidade reformada indígena localizada na Serra de Ibiapaba, no Ceará, classificada pelo padre Antônio Vieira como “A Genebra do Sertão” (VIEIRA, 2006, p.31). Todavia, essa comunidade foi dizimada durante a “Guerra dos Bárbaros”, conflito que dizimou indígenas no Brasil Colonial.

No Brasil, os calvinistas se estabeleceram de modo perene no século XIX quando da vinda do missionário Ashbel Green Simonton, ligado ao presbiterianismo estadunidense e da conversão do padre José Manoel da Conceição, um pioneiro pregador itinerante (DIAS, 2014, p.87-104). Os presbiterianos formaram no Brasil uma das principais instituições educacionais do país, o Mackenzie, e fora a Igreja Presbiteriana a primeira denominação protestante a ter um presidente da república, Café Filho, que foi filho de um presbítero, mas que no poder se disse agnóstico.  Os calvinistas formaram um grupo religioso que no Brasil passou por várias cisões (SOUZA, 2015, p.177-222), formando igrejas como a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Independente, a Igreja Presbiteriana Conservadora e a Igreja Presbiteriana Renovada.

Anglicanos no Brasil

Antes dos luteranos e presbiterianos, os anglicanos se estabeleceram no Brasil em 1808, com a Abertura dos Portos às Nações Amigas, decreto assinado por D. João VI, e assim como os seguidores da teologia de Lutero e Calvino, apresentam postura favorável à participação do cristão nos combates. Ligados à Reforma Inglesa, os anglicanos formaram uma igreja que possui uma característica de ter no Brasil “dois braços” (SILVA, 2015, 25-74).

Um braço imigrante, que se explica pela importância da presença inglesa na economia brasileira (em um período que se estendeu de finais do século XVIII até a Segunda Guerra Mundial) e um braço missionário, realizado pela Igreja Episcopal norte americana, que enviou evangelizadores para o Brasil e demais países latino-americanos ao longo dos séculos XIX e XX. Um dos principais nomes da teologia anglicana brasileira foi o bispo Robinson Cavalcante, influente por seus escritos e proposições sobre a presença evangélica na política.

Do interior da Igreja Anglicana surgiu um movimento de renovação espiritual, cujos membros, liderados por Charles Wesley, que atuou como capelão militar, foram denominados metodistas, devido a serem metódicos em seus exercícios de expressão cotidiana de fé. Uma das características de sua teologia é a compreensão arminiana, que possui esse nome como referência a Jacob Armínio, teólogo holandês que desenvolveu uma doutrina denominada graça preveniente (RODRIGUES, 2016, p.29-31), tida por muitos como oposição ao calvinismo.

Metodistas no Brasil

Os metodistas também vieram ao Brasil com as missões norte-americanas (ALMEIDA, 2015, p.225-280). Fundaram importantes centros educacionais, como a Universidade Metodista de São Paulo e a Universidade Metodista de Piracicaba. Também entre os metodistas houve um processo de pentecostalização, marcado pelo surgimento, nos anos 1960, da Igreja Metodista Wesleyana, de cunho reavivado.

A Igreja Presbiteriana é tradicionalmente calvinista e por sua vez a igreja Metodista tradicionalmente arminiana. Todavia, existe uma denominação possuiu em seus estatutos a possibilidade do convívio entre estes dois polos teológicos: os Batistas.

Entre os batistas, temos exemplos de congregações tanto arminianas como calvinistas.  Estes chegaram ao Brasil em diferentes momentos e movidos por diferentes interesses ao longo dos séculos XIX e XX (RODRIGUES, 2014, p.149-166). Um dos marcos foi a derrota do Sul na Guerra Civil dos Estados Unidos, o que motivou uma emigração de antigos Confederados ao Brasil, que se instalaram no Pará e no interior paulista, nas cidades de Americana e Santa Bárbara d’Oeste. Outro marco foi a chegada do casal Willian Buck Bagby e Anne Luther Babgy na capital da Bahia, onde fundaram a primeira igreja Batista para brasileiros.

Existem também batistas frutos de expansão missionária entre imigrantes, como os teuto-batistas, os batistas russos e os suecos (Convenção das Igrejas Batistas Independentes). A principal instituição que congrega as diversas igrejas batistas no Brasil ao longo de sua história é a Convenção Batista Brasileira. No entanto, entre os batistas, tivemos também uma cisão provocada pelo processo de pentecostalização, que teve como marco a liderança do pastor Enéas Tognini, ex-presidente da Sociedade Bíblica do Brasil e que aderiu ao pentecostalismo fundando a Igreja Batista Nacional Cristã. Igreja marcada pela pluralidade, tiveram como um dos seus principais marcos indenitários, durante o século XX, o batismo de adultos, a comunhão em duas espécies apenas para batizados por imersão e a utilização do Hinário Cantor Cristão.

Com relação às principais denominações protestantes tradicionais brasileiras, os congregacionais também formam um grupo histórico favorável ao serviço militar, como os demais grupos citados até aqui. A Igreja Congregacional surgiu pelos esforços do missionário escocês Robert Kalley, que chegou a ser médico de D. Pedro II (GUEIROS VIEIRA, 1980, p.113-133). No Brasil a denominação foi a responsável pela edição de um dos principais hinários evangélicos do Brasil, o Salmos e Hinos. Sua principal abrangência é o Rio de Janeiro, o interior de São Paulo e partes do Nordeste. (SANTOS, 2017, p.11-31).

Guerra e Reforma Radical

As denominações ligadas à Reforma Magisterial em geral se apresentam favoráveis ao serviço militar. O pacifismo cristão protestante, por sua vez, tem raízes na Reforma Radical. Em especial, no grupo de anabatistas que buscou ser uma oposição a ação social violenta empreendida por Thomas Müntzer, líder principal de uma sangrenta Reforma Camponesa, surgida após os primeiros eventos da Reforma. Meno Simons, líder do pacifismo anabatista, na obra Uma admoestação consoladora acerca do sofrimento, da cruz, e da perseguição dos santos por causa da palavra de Deus e de seu testemunho, fez as seguintes afirmações:

Em primeiro lugar, a aqueles que nos perseguem afirmam que somos como os de Müntzer, e que não somos obedientes aos magistrados. Antes de tudo, respondemos dizendo que estamos de acordo que os seguidores de Münster eram sediciosos e que em muitas coisas, trabalharam contra a palavra de Deus.  (SIMONS, 1976, p.372)

O Misericordioso Pai de Graça seguramente nos preservará de todo o abominável distúrbio, como os que tem causados os seguidores de Münster, coisas que, lamentavelmente, estão em voga entre nossos confundidos cristãos. Porque pela graça de Deus, temos convertido nossas espadas em arado e nossas lanças em rastelos, e nos sentaremos embaixo da verdadeira vinha; quer dizer, sob o Príncipe da Eterna Paz. E nunca mais nos prepararemos para conflitos carnais nem para guerras de sangue. (SIMONS, 1976, p.374)

Menonitas

Os Menonitas formam um grupo que veio para o Brasil nos anos 1930, fugindo da perseguição na extinta União Soviética e se fixou em localidades no interior de Santa Catarina, em Curitiba e em localidades no interior do Paraná (DYCR, 1993, p.332-336). Seguidores da Reforma Radical Anabatista do religioso holandês Menno Simons, caracterizam-se por formar comunidades agrícolas fechadas ao mundo moderno, no qual os meninos e meninas aprendem a ler a Bíblia, o idioma do país em que vivem e o plautdietsch, dialeto característico desse grupo religioso. Porém, no Brasil, os menonitas apresentam característica especiais, possuindo em Curitiba um centro educacional. Eles também possuem um ramo pentecostal, a Igreja Evangélica Menonitas Nova Aliança.

Por fim, os Adventistas do Sétimo Dia, Mórmons e Testemunhas de Jeová também se apresentam como grupos pacifistas. Os Adventistas surgiram de um grupo que se iniciou em um movimento messiânico nos Estados Unidos da América (QUEIRÓZ, 2003, p.118), no qual surgiu uma “profetiza”, a senhora Ellen White. O início do adventismo no Brasil possui duas vertentes, sendo a primeira entre os imigrantes luteranos alemães, que se converteram por influência dos escritos de Ellen White e outro núcleo foram as missões humanitárias na região amazônica.

Os adventistas possuem algumas doutrinas distintivas dos outros grupos protestantes, em especial o sábado como dia de guarda e a restrição a alguns alimentos, como a carne de porco. Não são considerados por alguns grupos de evangélicos e reformados como protestantes; todavia, autodenominam-se protestantes (FOLLIS, 2013, p.135-169). Os adventistas não permitem que seus membros atuem nas Forças Armadas como combatentes, mas como “não combatentes conscienciosos”. Isto é, não portando armas, porém, prestando o serviço militar.

Assim como os adventistas, os Mórmons (nome pelo qual são conhecidos os adeptos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) e os Testemunhas de Jeová também surgiram nos Estados Unidos. Contudo, estes grupos não se consideram protestantes. Os mórmons, por afirmar que não protestam contra a Igreja Católica. Os Testemunhas de Jeová, por considerar que o protestantismo apostatou dos valores iniciais do movimento surgido no século XVI.

Porém, possuem uma característica semelhante às demais denominações do protestantismo de missão. Consideram a evangelização uma prática religiosa digna de ser realizada. Muitos lares brasileiros foram visitados por membros dessas duas denominações que possuem posturas radicalmente pacifistas e contrárias ao militarismo. Em geral, os membros dessas igrejas são excluídos do alistamento militar. Durante a Segunda Guerra, o pacifismo dos Testemunhas de Jeová os levou aos campos de concentração na Alemanha nazista.

Uma das principais questões envolvidas na teologia protestante é a ideia de Sola Scriptura. Isto é, a Bíblia ser tida como único preceito de verdade e fé. Por isso, as interpretações sobre a validade ou improbidade do cristão lutar nas guerras perpassa interpretações bíblicas.  Para alguns grupos, a guerra é válida, e a ela apresentam citações bíblicas. Para outros, a guerra é imprópria, também apresentando citações bíblicas.

Passando em revista o que foi exposto, os grupos protestantes favoráveis ao Serviço Militar Obrigatório foram os luteranos, os calvinistas, os armínio-wesleyanos e alguns grupos batistas. Os grupos de pacifistas radicais são os herdeiros históricos dos anabatistas e inconformistas ingleses, como os menonitas, adventistas do sétimo dia e testemunhas de Jeová.

A Teologia e as Guerras Mundiais do Século XX

Ao pensar a relação entre a guerra e a teologia, pode-se observar que grandes teólogos de linha evangélica apresentaram experiências militares ao longo de sua vida, alguns deles atuando como capelães militares. Ulrico Zuínglio, John Wesley, Friederich Schleiermacher e Paul Tillich atuaram como capelães militares (OLSON, 2001). Ulrico Zuínglio morreu em combate ao animar espiritualmente as tropas que combatiam as investidas papais contrárias à transformação social que a Reforma apresentava ao propor uma nova espiritualidade ao Ocidente.

John Wesley, por sua vez, exerceu a função de capelão militar da Geórgia, continuando sua ação entre militares após seu retorno para a Inglaterra.

Schleiermacher, filho de um capelão militar, no início do seu ministério foi capelão em um hospital militar, sendo o pioneiro utilizador do método hermenêutico para a interpretação das sagradas escrituras. Por sua vez, Paul Tillich atuou como capelão do exército alemão na Primeira Guerra Mundial.

Uma característica distinta do protestantismo no século XX para os séculos anteriores é a existência de uma identidade hermenêutica maior que uma identidade denominacional entre os teólogos protestantes. Como explica o teólogo Júlio Zabatiero, no século XX, três foram as principais formas de interpretação teológica da Bíblia entre os evangélicos: a hermenêutica histórico-crítica, a hermenêutica histórico-gramatical e a hermenêutica pentecostal (ZABATIERO, 2010, p.135-165). Assim, as diferentes denominações possuíram em seus quadros os seus liberais que seguiram hermenêuticas histórico-críticas e seus fundamentalistas, seguindo a hermenêutica histórico-gramatical. Por vezes, essas diferentes hermenêuticas causaram cismas denominacionais.

No século XX, os teólogos apresentaram profundas reflexões sobre o papel do cristão na sua relação com o Estado e a Guerra. Pois os principais centros de produção teológica no campo protestante, os Estados Unidos, a Alemanha e a Inglaterra, foram as protagonistas das duas principais guerras do século. Em especial, aos teólogos, ao entrarem em contato com os horrores da guerra, pensaram como menor a importância do poder do Estado, visto que uma comunidade cristã que tivesse como principal foco corroborar com os mandos e desmandos dos agentes estatais estaria negando o ensino de Jesus Cristo.

Uma das principais críticas que os teólogos do século XX fizeram à teologia liberal, e que a fez cair em desprestígio em muitos círculos cristãos, foi o fato de um de seus principais formuladores, Adolf von Harnack, ter assinado uma declaração de intelectuais que apoiaram a entrada da Alemanha na Primeira Guerra Mundial (BERGER, 2017, p172).  Assim, muitos teólogos buscaram se posicionar de modo um pouco mais ousado e de forma crítica às ações realizadas pelos agentes estatais ao longo do século XX.

Essa foi a experiência vivida pela igreja evangélica e reformada na Alemanha ao longo do advento do nazismo. Os principais nomes da teologia alemã se negaram a se sujeitar aos ditames nazistas, formando e liderando um grupo minoritário de cristãos que formaram a Igreja Confessante, como grupo de resistência ao horror nazista. Um dos marcos da Igreja Confessante foi a Declaração Teológica de Barmen, formulada por Karl Barth e que teve como consequências principais uma ampla perseguição aos opositores do nazismo no interior das igrejas cristãs.

Assim, Karl Barth acabou tendo que abandonar a Alemanha, trabalhando como professor em Basiléia, na Suíça. Também Paul Tillich foi um dos teólogos perseguidos pelo nazismo, tendo deixado a Alemanha e trabalhado por muitos anos do Seminário Teológico União, na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Tillich foi um dos capelães do exército alemão ao longo dos anos dolorosos da Primeira Guerra Mundial, com consequências pessoais graves, incluindo traços de doença mental e um divórcio, casando-se posteriormente em segundas núpcias.

O principal legado da Declaração de Barmen não foi a consequência direta da perseguição a intelectuais cristãos, mas sim o exemplo de resistência à barbárie representada pelo nazismo. Alguns dos teólogos que não foram expostos ao exílio, permaneceram na Alemanha Nazista, buscando em grande parte se opor de todas as formas ao nazismo, mesmo como grupo minoritário de cristãos. Entre eles, esteve o nome de Dietrich Bonhoeffer, um dos principais teólogos do século XX.

Bonhoeffer

Nascido em uma família abastada, Bonhoeffer sentiu desde sua juventude um chamado para o serviço cristão, sendo a dor da morte em combate experimentada pelo teólogo que teve seu irmão foi morto na Primeira Guerra. Autor de vasta obra, tem como um de seus principais livros O  Discipulado, no qual apresentou uma diferença entre a Graça Barata e a Graça Preciosa (BONHOEFFER, 2016, 19-31), conceitos importantes para os cristãos evangélicos de todo o mundo.

Porém, a sua mais ousada atitude foi a de conspirar em um plano para matar Adolf Hitler. O plano foi descoberto e Bonhoeffer acabou preso em um campo de concentração, sendo morto pelos soldados do Terceiro Reich. No seu livro Ética, apontou reflexões sobre a relação entre Igreja e Estado. Para aqueles que se surpreenderiam com um teólogo participando de um assassinato, o autor apontou que:

O direito que a autoridade têm, baseado em seu poder e sua incumbência, é direito de Deus e compromete a consciência. A autoridade exige obediência, “por causa da consciência” (Rm 13-5) o que pode ser interpretado também como “por causa do senhor” (Rm13-7; 1 Pe 2-17). (…) O dever de obediência compromete-o até que a autoridade queira obriga-lo diretamente a transgredir o mandamento divino, até que a autoridade, portanto, renegue manifestamente sua incumbência divina e assim perca o seu direito.  (BONHOEFFER, 2009, p.217-218)

Desse modo, a partir do momento em que a autoridade não mais representa a ação divina sobre a Terra, o cristão não deve seguir ao “governo deste século”. Neste mesmo sentido, Jürgen Moltmann, teólogo que se converteu ao cristianismo após a experiência da Segunda Guerra Mundial, profundamente inspirado em Karl Barth, apontou que a legitimidade da ação do Estado não está vinculada ao monopólio do uso legítimo da violência, mas sim à força das leis (MOLTMANN, 2010, p.36). Portanto, não deve ser obedecida cegamente. Assim, podemos compreender o quanto a experiência do nazismo e da entrada da Alemanha nas guerras mundiais do século XX geraram de reflexões para os teólogos daquele país, tanto entre luteranos quanto entre reformados.

Os teólogos ingleses

ambém na Inglaterra, pensadores ligados ao cristianismo apontaram reflexões sobre a guerra. Como exemplos, pode-se citar David Martyn Lloyd-Jones e Clive Staples Lewis (C.S. Lewis). Todavia, como se tratava de uma democracia, os cristãos ingleses não viveram o dilema da guerra da mesma forma que os teólogos alemães ligados à Igreja Confessante, porque não se tratava de se opor ao Estado, mas de apoiar a decisão do Estado Inglês em confrontar militarmente as ditaduras totalitárias representadas pelo nazismo e pelo fascismo.

Entre os principais líderes religiosos da Inglaterra do século XX, destacou-se o nome de David Martyn Lloyd-Jones. Ao declinar do curso de medicina para se dedicar à vocação de clérigo, Lloyd-Jones foi destacado líder da Igreja Presbiteriana na Inglaterra. Em um sermão pregado no ano de 1939 na Capela de Westminster, da qual era o reverendo responsável, pregou sobre a sua visão em relação à guerra:

Antigamente, a teologia e a vida prática do cristão eram baseadas diretamente na Bíblia e em seu ensino. Contudo, ultimamente a abordagem tem sido cada vez mais filosófica, e os homens tendo traçado um falso retrato de Deus, estão surpresos e aborrecidos porque os fatos parecem demonstrar que o retrato que traçaram não é acurado! Os homens que viam e conheciam a Bíblia, e que viviam por seu ensino, não ficavam perturbados e perplexos com o problema da guerra e sua relação com Deus. Eles não achavam que isso ferissem as raízes da sua fé. Por que? Porque viam claramente que em parte alguma e nunca a Bíblia promete que não haverá guerra de modo algum deste lado do milênio. (Lloyd-Jones, 2009, p. 80)

Classificado como conservador, por possuir um posicionamento de defesa das Sagradas Escrituras e considerar como duvidáveis as teologias que questionavam a centralidade bíblica, Lloyd-Jones defendeu a importância de o cristão compreender que a guerra era parte da vida de fé, tendo uma postura contrária ao pacifismo.

Uma posição contrária ao pacifismo também foi a tônica dos escritos de C.S. Lewis, autor de livros de grande alcance entre alguns grupos evangélicos brasileiros, em especial os títulos Cristianismo Puro e Simples e Peso de Glória. Ligado ao anglicanismo, C.S Lewis não era um clérigo, mas sim escritor (autor das Crônicas de Nárnia, que ganhou sucesso internacional após se transformar em filme de Hollywood) e professor universitário de Literatura.

Seu principal livro cristão, Cristianismo Puro e Simples, foi uma compilação de pregações radiofônicas irradiadas por Lewis para encorajar os soldados que foram convocados para lutar no front contra o nazi-fascismo. Em um discurso no qual apresentou as razões pelas quais não era pacifista (posteriormente publicado como capítulo no livro Peso de Glória) afirmou que:

Eis porque não sou pacifista. Se tentasse ser, encontraria uma base factual muito duvidosa, uma linha de raciocínio obscura, o peso tanto da autoridade humana quanto da autoridade divina contra mim e fortes bases para sustentar que meus desejos orientaram minha decisão. Como já declarei, as decisões morais não admitem certeza matemática. Pode ser, afinal, que o pacifismo esteja correto. Para mim, no entanto, são remotas as possibilidades, mais remotas do que eu me preocuparia de ter contra mim a voz de praticamente toda a humanidade. (LEWIS, 2008, p.90)

Ao observarmos que teólogos de língua alemã e inglesa — dois dos principais centros de pensamento que influenciaram o protestantismo brasileiro — apontaram a validade das ações militares, podemos observar que a maior parte dos principais líderes eclesiásticos brasileiros também compreendem a guerra como ação digna para o cristão. Assim, foi dentro deste ideário cristão, em um contexto radical representado pelos totalitarismos, que iniciou a presença de capelães protestantes no Exército Brasileiro.

Entre os pracinhas que foram para a Segunda Guerra Mundial, havia evangélicos que tiveram como capelães os pastores Juvenal Ernesto da Silva (metodista) e João Filson Soren (batista). Hoje, em várias corporações militares, existem irmãos de fé evangélica. Oremos para que esses irmãos possam ser promotores da paz em nosso país. Que sigam eles o exemplo de fé do centurião e a conduta conforme a ordenação de João Batista aos soldados, de não fazer o mal utilizando das armas, mas que a utilizem com justiça e para a provisão do bem.

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[1] Assim como um dos filhos de Alfeu, um dos filhos de Zebedeu, o pai de Judas Tadeus e o Irmão do Cristo… apenas mais um Tiago pecador no serviço do Rei Jesus.


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