1- QUEM É O “ANJO DA IGREJA”? (Apocalipse 1.20;2.1)
- Alguns teólogos entendem que se trata do líder principal da Igreja (o PASTOR);
- Outros opinam que se trata de guardiões angélicos que têm a incumbência de “vigiar” sobre o estado espiritual de cada Igreja. Fundamentam-se em Daniel 4, 10, 12, por exemplo.
- Uma terceira opção interpretativa vê, no “anjo” da Igreja, uma figura simbólica que representa a própria Igreja.
Esta é chamada de candeeiro (castiçal) e também de estrelas nesse mesmo capítulo 1. Portanto, é próprio, na mesma linha figurativa, dizer-se que se trata de “anjos-estrelas” que representam Igrejas (o texto grego, em sua formulação gramatical, favorece essa idéia; o genitivo “da” igreja (caso gramatical que indica possessão) não aponta para o caso de propriedade, como se o anjo fosse “encarregado” da Igreja, mas para o caso de alguém que simboliza, ou seja, representa a Igreja).
Como diz o comentarista Adof Pohl, em seu livro Apocalipse de João I (tradução do alemão – edição 2001, Editora Evangélica Esperança): “Portanto, na visão de Apocalipse 1.12-16, a questão é duas vezes a Igreja, tanto nas estrelas quanto nos candeeiros. Na figura dos candeeiros as igrejas aparecem como as que Cristo mantém enquanto doador do óleo (Zacarias 4.2,3; Apocalipse 11.4) e que estão diante dele como objeto de seu cuidado e amor (Apocalipse 1.5,6). Na figura das estrelas, afixadas no firmamento do cosmos, a Igreja está voltada para o mundo ao seu redor. ‘Resplandeceis como luzeiros (estrelas) no mundo’” (Filipenses 2.15; Mateus 5.14; Efésios 5.8).
Assim também entende o ilustre comentarista do Apocalipse, o teólogo batista G. R. Beasley-Murray, em seu livro The Book of Revelation (O Livro da Revelação-Apocalipse, 2010). Ele escreveu, comentando o versículo 20 do capítulo primeiro do Apocalipse: ”João escreve para pessoas que constituem comunidades reais cujas vidas são caracterizadas pelas falhas e fraquezas às quais qualquer organização está propensa. Mas essas comunidades têm uma característica que as distingue de todas as outras na terra: elas estão em Jesus (v. 9) e são, dessa forma, santos do Altíssimo, sacerdotes e reis em Cristo para Deus, luzeiros no mundo, através dos quais brilha a Luz do mundo. A conduta terrena deles é o reflexo da sua relação celestial”. (Tradução livre: Pr. José Tomaz R. Lima)
O ministério dos anjos
Charles C. Ryrie nos explica esse curioso assunto em “Teologia Básica” (conforme exposto por Charles C. Ryrie em Teologia Básica – Um guia sistemático popular para entender a verdade bíblica).
Quem foi Charles C. Ryrie
Ex-deão da Dallas Theological Seminary (DTS), centro de excelência na formação de teólogos e pastores, Dr. Charles Caldwell Ryrie foi um renomado professor e autor de várias obras de referência na área teológica; seu portfólio inclui mais de 50 livros e a edição d’A Bíblia Anotada Expandida (The Ryrie Study Bible, em inglês), um sucesso editorial traduzido para vários idiomas, lançado no Brasil pela Mundo Cristão. Dr. Ryrie se envolveu pessoalmente com a publicação de sua Bíblia de estudo em português, servindo como consultor para a equipe de tradução e ajudando a financiar a produção original. Formado pela Faculdade de Haverford (bacharel), pelo Seminário Teológico de Dallas (mestre e doutor), pelo Seminário Teológico Batista da Liberdade (doutor) e pela Universidade de Edimburgo, na Escócia (doutor), ficou conhecido por sua habilidade de ensinar temas difíceis da teologia com simplicidade e clareza. Suas obras continuam sendo fonte de consulta e inspiração para líderes e educadores cristãos em vários países, incluindo o Brasil. Pai de três filhos e três netos, faleceu em fevereiro de 2016, em Dallas (EUA).
O que fazem os anjos?
Segundo Ryrie, de maneira essencial e básica, os anjos bons são servos (Hb 1.14). Deus os enviou para servir ou ajudar (diakonian) os salvos e, ao fazer isso, os anjos servem de mensageiros sacerdotais (leitourgika pneumatata) no templo-universo do Todo-poderoso.
I. Em relação a Deus
Em relação a Deus, seu ministério principal é louvar e adorar o Senhor.
- Eles o louvam (Sl 148.1-2; Is 6.3).
- Eles o adoram (Hb 1.6; Ap 5.8-13).
- Eles se regozijam com os seus feitos (Jó 38.6,7).
- Eles o servem (Sl 103.20; Ap 22.9).
- Eles se apresentam diante dele (Jó 1.6; 2.1).
- Eles são instrumentos do juízo divino (Ap 7.1; 8.2).
II. Em relação aos tempos
Os anjos pareciam estar especialmente ativos quando Deus instituiu uma nova era na história.
- Eles se reuniram para louvá-lo quando a Terra foi criada (Jó 38.6-7).
- Estavam envolvidos quando a Lei mosaica foi entregue (Gl 3.19; Hb 2.2).
- Estavam ativos na Primeira Vinda de Cristo (Mt 1.20; 4.11).
- Estavam ativos durante os primeiros anos da Igreja (At 8.26; 10.3-7; 12.11).
- Estarão envolvidos nos eventos relacionados à Segunda Vinda de Cristo (Mt 25.31; 1Ts 4.16).
III. Em relação ao ministério de Cristo
A. Em seu nascimento
1. Previsão. Gabriel predisse o nascimento de Jesus (Mt 1.20; Lc 1.26-28).
2. Anúncio. Um anjo anunciou o nascimento de Jesus aos pastores e foi acompanhado em seu louvor por uma multidão de anjos (Lc 2.8-15).
B. Durante sua vida
1. Alerta. Um anjo alertou José e Maria a que fugissem para o Egito, escapando, assim, da ira de Herodes (Mt 2.13-15).
2. Direção. Um anjo orientou a família para retornar a Israel após a morte de Herodes (Mt 2.19-21).
3. Ministração. Anjos ministraram a Jesus após sua tentação no deserto (Mt 4.11) e seu conflito no Getsêmani (Lc 22.43).
4. Defesa. Jesus disse que havia legiões de anjos preparadas para defendê-lo se ele os chamasse (Mt 26.53).
C. Após sua ressurreição
1. Na pedra. Um anjo rolou para longe a pedra que fechava a entrada do sepulcro de Jesus (Mt 28.1-2).
2. Anúncio. Anjos anunciaram a ressurreição para as mulheres na manhã do domingo de Páscoa (Mt 28.5,6; Lc 24.5-7).
3. Ascensão. Anjos estavam presentes na ascensão de Jesus (At 1.10-11).
D. Na Segunda Vinda de Jesus
1. Arrebatamento. A voz do arcanjo será ouvida no arrebatamento da Igreja (1Ts 4.16).
2. Segunda Vinda. Os anjos vão acompanhá-lo na Segunda Vinda (Mt 25.31; 2Ts 1.7).
3. Juízo. Os anjos vão separar o joio do trigo na Segunda Vinda (Mt 13.39-40).
IV. Em relação às nações da Terra
A. Em relação à nação de Israel
O arcanjo Miguel guarda Israel de maneira especial (Dn 12.1).
B. Em relação às outras nações
Os anjos protegem governantes e nações (Dn 4.17) e procuram influenciar seus líderes humanos (10.21; 11.1).
Eles estarão envolvidos nos juízos de Deus durante os anos da tribulação vindoura (Ap 8,9,16).
V. Em relação aos ímpios
- Os anjos anunciam os juízos iminentes (Gn 19.13; Ap 14.6,7; 19.17-18).
- Os anjos infligem o juízo divino sobre os ímpios (At 12.23; Ap 16.1).
- Os anjos vão separar os justos dos ímpios no fim dos tempos (Mt 13.39-40).
VI. Em relação à igreja
A. Ministério básico
Seu ministério básico é servir os salvos (Hb 1.14).
B. Ministério geral
Os anjos estão envolvidos na comunicação e na revelação do significado da verdade, da qual a Igreja, hoje em dia, se beneficia (Dn 7.15-27; 8.13-26; 9.20-27; Ap 1.1; 22.6-8).
C. Ministérios específicos
1. Pedidos de oração. Levam as respostas das orações (At 12.5-10).
2. Salvação. Ajudam nos esforços evangelísticos dos cristãos (At 8.26; 10.3).
3. Observação. Observam as experiências, o trabalho e os sofrimentos dos cristãos (1Co 4.9; 11.10; Ef 3.10; 1Pe 1.12).
4. Encorajamento. Incitam à coragem nas horas de perigo (At 27.23-24).
5. Presentes na morte. Ministram aos justos na hora de sua morte (Lc 16.22).
No passado eles ministraram dessas maneiras e podem muito bem continuar agindo assim, mesmo que não estejamos cientes disso. Deus, claro, não é obrigado a usar anjos, pois pode fazer tudo isso diretamente. Porém, em muitas ocasiões, aparentemente escolheu utilizar o ministério intermediário dos anjos. Mesmo assim, o cristão reconhece que é o Senhor quem faz todas as coisas, seja de forma direta, seja por intermédio de seus anjos (veja o testemunho de Pedro reconhecendo que o Senhor o libertou da prisão, embora Deus tenha usado um anjo para fazer isso — Atos 12.7-10 comparado com os versículos 11 e 17).
Talvez a inscrição que vi (Charles Ryrie, citando), certa vez, em uma antiga igreja na Escócia sirva para mostrar bem esse equilíbrio:
“O poder de Deus é suficiente para nos governar; mesmo assim, para suprir as fraquezas do homem, ele enviou seus anjos para cuidar de nós”. Provavelmente, a afirmação de que os anjos observam a conduta dos remidos assusta-nos tanto quanto qualquer uma das verdades acerca de seres angelicais.
A razão de seu interesse por nós talvez seja o fato de não poderem experimentar a salvação pessoalmente. Então, a única maneira de ver os efeitos da salvação é observar o que ocorre com os seres humanos que são salvos.
A verdade é que fazemos parte de um “teatro”, em que o mundo, os seres humanos e os anjos formam a plateia (1Co 4.9). Devemos desempenhar bem nosso papel diante deles e de Deus, pois todas as coisas estão descobertas e patentes aos seus olhos.
Conclusão:
Do exposto, pode-se CONCLUIR que essa interpretação de que o “anjo da Igreja” seria o pastor ou líder humano com funções de “supervisor espiritual”, neste caso das sete igrejas, não nos parece ter suficiente base bíblico-hermenêutica.
Todas essas cartas deixam claro que as respectivas mensagens foram enviadas para os membros das igrejas locais (citadas nominalmente) e não ao pastor(es), propriamente dito. E não pode ser diminuída a importância da advertência no final de cada carta: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”!
Sobre a responsabilidade dos pastores – isso encontramos em outros textos, tais como: Atos 20.28; 1Pedro 5, etc. Porém, não nesse versículo 20 do primeiro capítulo de Apocalipse!
Fonte: (Estudos no Apocalipse – Pr. José Tomaz R. Lima – última revisão: setembro de 2022 – email: pastor.lima@hotmail.com
Charles C. Ryrie em Teologia Básica – Um guia sistemático popular para entender a verdade bíblica (editora Mundo Cristão).