Neste artigo, entenda o conceito de Igreja Missional. Nos meses de março a junho de 2015, fui desafiado a preparar um projeto de ministério visando um novo momento na vida de uma igreja (e por consequência, do meu ministério). Como sempre, nestes momentos passamos um tempo repensando as experiências ministeriais já vividas, avaliando o que deu certo e o que não deu certo, mas também gasta-se um bom tempo analisando os sonhos de Deus para o nosso ministério e a realidade estudada no novo projeto. (foto ao lado, capa do jornal LT de setembro de 2015)
É inegável que cada igreja, cada região do Brasil (e mundo afora), tem as suas particularidades e que todo bom projeto ministerial deve levar em conta o povo com quem se vai trabalhar e, acima de tudo, a visão de Deus para aquele momento específico da igreja.
No fundo, no fundo, não precisamos de muitas horas de oração e jejum para descobrir o que deve ser feito. A minha missão, como Ministro da Palavra e como crente em Cristo Jesus, é muito clara e direta. Mateus 28.18-20 responde sobre o que deve ser feito. Também não precisamos de nenhuma nova revelação para perceber que dependemos do Espírito Santo para fazer o que temos que fazer (Atos 1.8). Todo cristão deveria ter bem claro qual é a sua missão e sua competência a ser desempenhada: pregar a toda criatura, batizar, fazer discípulos, ser uma testemunha.
Então, se isso é claro, porque algumas igrejas parecem estar estagnadas? Se isso é claro, por que os crentes não fazem o que devia ser feito? Por que a Igreja não cresce como poderia? Por que o nosso testemunho cristão está tão abalado? Por que o grupo religioso que mais cresceu nos últimos 10 anos foram os sem religião? Por que há tanto desigrejado?
Foi em busca destas respostas e também em busca de formular uma proposta ministerial para o tempo atual, que me debrucei a pesquisar o assunto. Achei algumas coisas interessantes, que passo a compartilhar. Se fica muito claro o que deve ser feito, o problema então se concentra no COMO FAZER O QUE DEVE SER FEITO.
Definindo o Termo Igreja Missional
A palavra missional é um adjetivo de missionário. O termo missional foi usado pela primeira vez nos escritos modernos pelo Dr. Francis DuBose, em um livro intitulado “God Who Sends” (Deus que envia) publicado em 1983. Tanto DuBose quanto Richard Bliese argumentam que os termos igreja e missão precisam andar juntos, ou seja, que a igreja deve ser missionária em sua própria essência. Na década de 1990 o termo começou a aparecer com mais frequência nas obras de Darrel Guder e Lesslie Newbigin, que traçaram a história da igreja missional de volta às conversas iniciadas em círculos missionários da década de 1950, mesma época em que as teorias de crescimento de igreja despertavam interesse entre os evangélicos na América do Norte. A contribuição de Newbigin tem a ver com as implicações culturais em sua experiência como missionário.
Ed Stetzer, ex-presidente da Lifeway Research, distingue a igreja missional de uma igreja tradicional pelo senso de missão, em uma tentativa de sensibilizar a igreja estabelecida com missões bíblica para trabalhar no outro lado da rua e não apenas em missões além mar. Missional significa realmente fazer missão onde você está, afirma Stetzer e que Missional significa adotar a postura de um missionário, aprendendo e adaptando-se à cultura ao seu redor, e permanecendo bíblico. Stetzer resume o termo declarando que ser Missional significa ser um missionário, sem nunca sair do seu código postal. A igreja tradicional tem perdido o lado missional. Tem deixado de lado a sua essência. (Para quem quiser conhecer os recursos disponíveis acesse www.lifeway.com – a maioria em inglês e pago).
Percebe-se, então, que o termo missional é a ação prática do povo de Deus em parceria com Deus na sua missão redentora no mundo. Essa é uma grande definição e ela ajuda a igreja a mover-se de forma prática em direção à esse caminho missionário, pois a missão é o propósito principal da igreja no mundo. Em outras palavras são as pessoas comuns fazendo coisas ordinárias com extraordinária intencionalidade do Evangelho. A palavra intencionalidade aqui é usada como algo pensado antecipadamente para um fim, um resultado.
Stetzer afirma ainda que as igrejas missionais devem fazer o que os missionários fazem, independentemente do contexto. Deve-se estudar e aprender a língua tornar-se parte da cultura, proclamar as boas novas, ser a presença de Cristo, e contextualizar a vida bíblica e da igreja com a cultura, fazendo isso elas se tornarão igrejas missionais.
Lesslie Newbigin

Lesslie Newbigin foi um missionário britânico que atuou na Índia. Quando saiu da Inglaterra em 1936, a igreja ocidental se relacionava com a cultura no paradigma da cristandade (o mundo pensado pelo prisma cristão). Depois de décadas no campo, ao voltar para a Inglaterra em 1974, percebeu como a civilização ocidental secularizada tinha se tornado paganizada. Ele argumentou que os cristãos no Ocidente deveriam enxergar o mundo como um campo missionário, e que a igreja devia adotar a postura de um missionário que se relaciona com a cultura. As instituições da sociedade cristianizavam as pessoas por meio de estigmatizar toda outra conduta ou crença não cristã. A igreja reunia as pessoas e as desafiava a um compromisso cristão pessoal. Ao estar em uma cultura não cristã não poderiam simplesmente exigir com o mesmo compromisso das pessoas cristianizadas. Antes, deveriam adaptar cada aspecto de vida eclesiástica: adoração, pregação, vida comunitária, discipulado a um mundo não cristão. Era o que os missionários faziam para levar o Evangelho. Mas, no ocidente, esse modelo de cristandade amarrou a igreja por décadas em suas necessidades internas e na manutenção do seu privilégio cultural e social. A Grande contribuição de Newbigin foi nos ajudar a enxergar que a missão de Deus está conclamando a sua Igreja (povo de Deus) para ser uma igreja missionária em nossa sociedade, nas culturas em que nos encontramos, que já não são mais cristãs.
Os teólogos da igreja missional enfatizam que tudo o que a igreja deve ser e fazer é a missão. Para tanto, evangelismo/missão não deve ser apenas um programa da igreja, entre muitos, mas sim a identidade da igreja como testemunhas enviadas por Deus ao mundo. Os teólogos da igreja missional não foram meramente redesenhando a igreja para o sucesso em nosso contexto de mudança ou que procuram um método e resolução de problemas, pragmática abordagem ao ministério. Em vez disso, eles procuram diagnosticar o cativeiro cultural da igreja de hoje, incluindo a sua obsessão com o marketing e técnica. Mais importante, eles pintaram uma visão teologicamente enraizada da igreja como uma comunidade chamada a participar na missão de Deus e para o mundo.
Alan Hirsch afirma que uma teologia missional não se contenta com a missão de ser um trabalho baseado apenas na igreja. Pelo contrário, ela se aplica à toda a vida de um cristão. Todo verdadeiro discípulo no Reino de Deus é um missionário. Todo discípulo é um agente do Reino de Deus, e o dever do discípulo é levar a missão de Deus em todas as esferas da vida. Somos todos missionários enviados em uma cultura não cristã. Assim, para Hirsch, a igreja missional representa uma mudança significativa na maneira como pensar sobre a igreja. Como o povo missionário de Deus, deve-se envolver com o mundo da mesma maneira que ele faz, deve-se sair em vez de apenas estender a mão. Quando a igreja está em missão, é a verdadeira igreja.
Finalizando, você tem reparado no comercial da Igreja Universal? Aparece uma pessoa dizendo o que ela faz no seu trabalho ou na sociedade e essa pessoa conclui dizendo que ela é a Universal (veja mais em: www.eusouauniverversal.com/) – isso é apenas um exemplo desta ideia de como o cristão faz a ponte com a sociedade. E nós, muitas vezes, temos vergonha de dizer que somos cristãos.
Vida Missional
O problema do foco missionário na igreja é que o assunto missões sempre foi apresentado como um programa da igreja, algo que a igreja faz (obrigação dela). Algumas denominações restringem a ação missionária no ato de enviar e sustentar missionários (os que devem fazer a missão). Ter missões como um programa da igreja não é de todo mal, mas quando há somente isso, fica evidente que a igreja perde o propósito.
Atos 1.8 diz: Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra. O texto diz que o Evangelho deve ser pregado em toda a parte, mas parece que invertemos a ordem e começamos pelos confins da terra, negligenciando aqueles que estão ainda em Jerusalém (os do outro lado da rua).
Então, pregar o Evangelho não é simplesmente falar de Jesus. A proposta da vida missional é muito mais que compartilhar sua fé ou falar de Jesus. Vida missional tem a ver com encarnar Jesus aqui na Terra, é refletir Jesus às pessoas ao seu redor, é aceitar as pessoas e não julgar, é amar ao próximo como a si mesmo, é contagiar as pessoas com amor e compaixão no seu dia a dia, 24 horas por dia, 7 dias por semana (missão 24×7).
Nas igrejas há muitos agentes secretos de Deus. Vivemos um tempo onde a verdade absoluta do Evangelho tem sido questionada até mesmo pelos cristãos. Não por acaso as mensagens pregadas estão indo de um extremo ao outro (ou são legalistas ou são relativistas) de forma que muitos precisam redefinir o que é ser cristão. A proposta de Timothy Keller (A Igreja Centrada), é recolocar o Evangelho no centro da polarização, mostrando que o Reino de Deus não se resume à duas possíveis respostas, mas que o Evangelho genuíno pregado e vivido por Cristo (e pelos cristãos), é a melhor resposta.
Portanto, vida missional é para aqueles que entendem que a salvação não é um fim em si mesmo, mas a consequência de estarmos cheios do Espirito Santo. Somos chamados a refletir a imagem de Deus em nossas atitudes diárias, no trabalho, na escola, em casa, no trânsito; é ser igreja mesmo não estando na igreja; vida missional é viver Jesus 24×7 (24 horas por dia, 7 dias na semana), entendendo que reproduzimos a vida de Cristo em nós em todas as dimensões da vida humana. Isso leva-nos a uma profunda mudança de paradigma e foco. Para entender isso, assista o vídeo em: http://youtube/b7qyelRfy7g (Igreja missional)
3 Modelos de Igrejas
Em nossos dias há um tipo de igreja que está em declínio, outra está dominando e mais outra que está emergindo. Consegue discernir?
1 TRADICIONAL Fundamentalista
- Missão significa apenas enviar obreiros para outros lugares;
- As igrejas existem basicamente para suprirem as necessidades dos seus membros;
- As igrejas crescem através de nascimentos e ao atraírem pessoas por questão de lealdade denominacional;
- Comunidade significa que a igreja é uma subcultura fechada para os de fora;
- Os pastores são servos e professores, que fazem a maior parte do trabalho da igreja, especialmente a evangelização dos perdidos;
- Os perdidos raramente são procurados para relacionamentos com propósito evangelístico;
- Os cultos de adoração são baseados em tradições (ex. vestes litúrgicas, hinários, liturgias, órgãos, etc);
- Os prédios da igreja são considerados lugares sagrados (Cruzes, vitrais, ícones) onde as pessoas devem estar vestidas num padrão e agir formalmente.
2 EVANGÉLICA Contemporânea
- Missão é um departamento da igreja;
- As igrejas existem para preencher as necessidades básicas dos consumidores espirituais;
- As igrejas crescem através do marketing, que atrai as pessoas aos eventos da igreja;
- Comunidade significa que a igreja é um nicho subcultural seguro, que acolhe os perdidos na igreja;
- Os pastores são executivos, que lideram e gerenciam o Staff, o qual é responsável pelas atividades do ministério;
- Os perdidos são convidados para programas evangelísticos da igreja, que procuram atingir as pessoas que já estejam buscando;
- Os cultos de adoração são baseados nos estilos dos anos 80 e 90 (com guitarras, apresentações de dramas, etc);
- Os prédios das igrejas são lugares funcionais (ex. sem cruzes, sem vitrais, sem ícones) onde as pessoas vestem-se e agem informalmente.
3 MISSIONAL
- Missão é cada cristão ser um missionário em sua cultura local;
- Igreja são as pessoas que amam a Jesus e servem em missão na cultura local;
- A igreja cresce à medida que os cristãos levam Jesus aos perdidos através da hospitalidade, testemunho;
- Os pastores são missiólogos, que treinam os cristãos para serem missionários eficientes;
- Os perdidos são salvos pelo Espírito Santo quando e como ele determina;
- A fé é vivenciada publicamente, em grupo, como igreja, e inclui todos os aspectos da vida;
- Os cultos de adoração combinam formas antigas e estilos culturais locais contemporâneos;
- Os prédios das igrejas são sagrados, assim como o é toda a criação de Deus.
Fonte: www.maisumdiscipulo.com
Conclusão
Creio que a igreja brasileira está passando por um profundo processo de revisão da sua prática. A quantidade de crentes nominais chegou no limite. É tempo de retomar a missão da Igreja. Minha responsabilidade como Ministro da Palavra é muito mais que pregar um sermão de domingo e estimular o povo a continuar caminhando. É preciso fazer com que toda a membresia seja equipada para fazer a obra a partir da sua vida (Efésios 4.12), cada qual em sua frente missionária, para que a igreja consiga dialogar com os grupos não cristãos. Não podemos esquecer que, como ministro, somos chamados para equipar o povo, e como cristãos, para ser um missionário!
Este artigo foi publicado no Jornal Luz nas Trevas, como tema central da edição de setembro de 2015.
Indicação de leitura
Esses são alguns dos livros que li para escrever este artigo. É a minha indicação de leitura sobre a Igreja Missional (clique nas capas e quando for redirecionado para o site da Amazon Brasil, coloque as suas escolhas no carrinho).
Leia aqui o Jornal Luz nas Trevas, edição 974 de setembro de 2015, em PDF
Referencial bibliográfico:
GOHEEN, Michael. A igreja missional na Bíblia. São Paulo : Vida Nova, 2014
KELLER, Timoty. A Igreja centrada. São Paulo : Vida Nova, 2015
MUZIO, Rubens. O DNA da Igreja: comunidades cristãs transformando a nação. Curitiba : Editora Esperança, 2010
STETZER, Ed. Plantando igrejas missionais. São Paulo : Vida Nova, 2015
Site “Mais um discípulo”, disponível em www.maisumdiscipulo.com: acesso em junho de 2015.
WHIGHT, Christopher. A missão de Deus. São Paulo ; Vida Nova, 2014