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Influência mitolólogica do antigo oriente nas narrativas hebraicas da criação humana

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A busca investigativa por respostas que explicam a origem da vida, em particular a humana, levanta extensos questionamentos existenciais que desafiam a capacidade intelectual e possibilitam a difusão de mitos cosmogônicos milenares na tentativa de atribuir sentido para a existência e revelar uma iniciativa transcendente presente na criação. Por intermédio da metodologia qualitativa de revisão bibliográfica, o presente artigo científico presta-se ao estudo analítico e comparativo sobre a influência da concepção mitológica do Antigo Oriente nos relatos hebraicos da criação humana, destacando o desenvolvimento progressivo da perspectiva antropológica e cosmogônica presente nas narrativas bíblicas, como obra literária historicamente mais recente.

1- Introdução

De celebrações ritualísticas ancestrais até complexas aferições epistemológicas propostas pela cosmologia moderna, a incansável busca da humanidade por explicações plausíveis para a origem do universo observável, em particular para o surgimento da vida, expressa seu fascínio máximo pelo mistério da criação. As raízes dessa extensa perquirição existencial se perdem em tempos remotos da pré-história e remontam culturas milenares que tentaram entender não somente a origem da vida, como também do universo à sua volta. Ao versejar belas metáforas, adotar um riquíssimo simbolismo religioso, prescrever um corpo de ensinamentos doutrinais ou reproduzir experimentos laboratoriais no campo da genética, a imaginação humana continua a confrontar o vasto mistério da criação.

Não obstante, cresce em ritmo acelerado a apreciação pelos primeiros registros escritos da humanidade, não apenas em razão da originalidade de seu conteúdo, mas principalmente porque se dedicam em atribuir uma carga de significação à vida por meio dos chamados “mitos das origens”. Sua leitura exige uma adequada metodologia hermenêutica, uma vez que contém visões culturais e religiosas particulares e independentes do empirismo científico. Em razão da impossibilidade de verificabilidade e reprodução científica, os mitos “precisam de pessoas que acreditem neles para que sejam aceitos, por isso são expressões da verdade para as comunidades onde foram gerados”³ (SANCHES, 2007, p. 1). Por expressar profundo conhecimento antropológico, alguns mitos de origem excedem os limites da comunidade original e se tornam universais, a exemplo da concepção judaico-cristã da criação.

A concepção mítica mais tradicional da criação humana, responsável por delinear o pensamento ocidental dos últimos séculos, ganhou forma com os hebreus há pelo menos 2500 anos, durante o período pós-exílico sob a égide do império persa. Cabe salientar que, devido ao prolongado contato com as culturas orientais circunvizinhas, particularmente em lapsos diaspóricos ou exílicos, a perspectiva criacionista hebraica possivelmente sofreu influências das concepções mitológicas egípcia e mesopotâmica (durante o cativeiro babilônico).

No primeiro século de nossa era, a comunidade cristã nascente incorporou as narrativas criacionistas herdadas da tradição judaica nos escritos bíblicos, por sua vez constituídos expressão única da verdade e sustentáculo de sua fé. Contudo, se depende exclusivamente da adesão humana para fundamentar sua existência, pode-se questionar como o mito pode ser uma forma de expressão da verdade. E ainda, cabe indagar como é possível que os autores bíblicos tenham recebido inspiração em fontes literárias de outras confissões religiosas.

O presente artigo científico presta-se ao estudo analítico e comparativo sobre a influência da concepção mitológica cosmogônica do Antigo Oriente nos relatos hebraicos da criação humana, transcritos posteriormente nas narrativas bíblicas. Objetiva também o arrolamento de dados literários, similares e díspares, presentes em ambas as narrativas, destacando o desenvolvimento progressivo da perspectiva antropológica e cosmogônica dos textos bíblicos, como obra literária historicamente mais recente.

A proposição do tema de pesquisa teológica, além de possibilitar o desenvolvimento da identidade cultural do indivíduo através da compreensão dos processos históricos envolvidos na formação de sua experiência religiosa, proporciona o resgate e preservação das tradições cosmogônicas milenares. Pode-se observar que há no mito de Adão e Eva, e em muitos outros, uma ordem na criação e na natureza, compreensível à capacidade intelectual humana. A valorização de princípios e teorias primordiais elaboradas pelas culturas orientais antigas torna-se imprescindível, uma vez que se propõem a enaltecer o mistério da criação e contêm suas particulares similaridades.

2- Origem e evolução das narrativas da criação

Os capítulos iniciais do livro bíblico Gênesis mencionam as etapas criativas do mundo e do homem, procurando fornecer respostas acerca de suas origens. Descrevem a condição original de felicidade e perfeição dos primeiros humanos interrompida pela prática do pecado, por sua vez, responsável perda da vida no paraíso e consequente decadência de um estado original de elevação. Do início até meados do século XVIII, a representação genesíaca bíblica foi concebida, sem contestações, como o grande tratado a respeito das origens do ser humano, meta e coroação da criação, ajudando-o a conhecer-se a si mesmo e sua incomparável dignidade. Embora seja fruto de uma experiência libertadora, a concepção dessa narrativa cosmogônica foi considerada por muito tempo uma espécie de “lei básica”, ao impor condições para a existência e suprimir a liberdade humana.

Segundo a doutrina teológica tradicional, o homem é um ser criado diretamente por Deus que, em virtude do próprio espírito que lhe fora insuflado, difere de todas as outras criaturas, ocupando assim a primeira posição na escala criativa. Contudo, tal concepção mítica tradicional sofreu severas críticas a partir da revolução científica. Seus inícios remetem primeiramente a Galileu, físico italiano do século XVII, segundo o qual a terra não deveria ser considerada o centro da tradicional criação. O desenvolvimento do pensamento evolutivo proposto por correntes científicas modernas, como o darwinismo e a psicologia, desferiu também duros golpes que ajudaram o homem a se libertar de sua clássica doutrina. Reconhecido como pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) apresentou o processo demolidor deflagrado pela evolução científica em oposição à concepção antropológica tradicional: “Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do Universo. O segundo ocorreu quando a Biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente animal” (FREUD, 1940, p. 294).

De acordo com essa afirmação, o homem não deve ser considerado como a criatura perfeita de caráter predominantemente divino, mas apresentado como um fruto do desenvolvimento de um passado animal. Certamente o surgimento da concepção evolutiva da criação provocou profundo abalo interpretativo da tradição teológica eclesiástica acerca dos capítulos iniciais de Gênesis, assim como da criação de modo geral. Não obstante, o pensamento moderno contempla o embate entre a visão tradicional, responsável por afirmar que o homem é um ser espiritual não passível de posterior desenvolvimento espiritual ou físico, e a teoria evolutiva, que reduz a figura humana a um complexo produto biológico do reino animal. Acerca do reducionismo científico da idade moderna, o psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl (1905-1997) cita a seguinte definição antropológica: “O homem não é nada mais que um mecanismo bioquímico, alimentado por um sistema de combustão, que fornece energia aos computadores” (FRANKL, 1967, p. 344). O contraste entre a visão tradicional do homem e a concepção científica pode ainda ser observado pelos estudiosos modernos, como W. Heitler (1967):

No decurso de sua história, o homem se tem visto na forma de diversas imagens que variam entre extremos, difíceis de conceber mais contrastantes. Na Bíblia (no Gênesis) lemos: ‘Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus’. Um ramo da moderna biologia pretende conhecer os seres viventes enquanto sistema físico-químico. ‘A vida química é complicada’ – ouve-se dizer com bastante frequência. Pela mesma forma, o homem é determinado por uma complicada disposição de átomos. No entretempo, eis que encontramos ‘o membro intermediário entre o animal e o anjo’ de Schiller e o “animal maximamente evoluído” do darwinista. A ciência mudou radicalmente a imagem do homem. Na passagem bíblica citada, não se diz somente uma palavra sobre o ser físico do homem. Ele é apenas o retrato de Deus […]. O elemento primário é, portanto, a alma imortal. O surto de interesse pelo corpo humano tem verdadeiramente início, segundo parece, apenas no Renascimento, contemporaneamente ao florescimento da ciência em geral. Antes o homem era principalmente uma ‘alma imortal’ e possuía um corpo só em caráter secundário. Com a descoberta do corpo humano, teve início a descida do homem para a matéria, chegando até à sua estrutura molecular (HEITLER, 1967, p. 722)

A crise da tradição teológica provocada pelo progresso científico, embora causasse em primeiro momento profunda instabilidade, ofereceu nova possibilidade de reflexão, ainda mais necessária quando ressaltado o contraste secular entre ciência e religião. A releitura exegética das passagens bíblicas proposta pela tradição patrística consistia na distinção entre interpretação histórica e exegese alegórica. No entanto, levantava um impasse que opunha a interpretação literal à simbólica, ambas determinadas pelas concepções antigas sobre a língua e missão exegética.

A publicação dos primeiros textos de escrita cuneiforme a partir do início do século XVIII marcou a redescoberta do Antigo Oriente e revolucionou completamente a exegese bíblica, até então norteada pelos escritos dos teólogos e estudiosos patrísticos. Um dos textos orientais mais marcantes foi publicado em dezembro de 1872 pelo jovem pesquisador do Museu Britânico, George Smith (1840-1876), que anunciou sua decifração da narrativa babilônica, descrita em um tablete de escrita cuneiforme, a respeito de um dilúvio universal em paralelo com a história bíblica, e três anos depois, de outra narrativa babilônica sobre a criação. Esses documentos orientais lançaram uma nova perspectiva exegética sobre os textos bíblicos, possibilitada pelo emprego de uma exegese filológico-histórica decorrente desses documentos oriundos do mesmo ambiente da narrativa hebraica. Destarte a interpretação bíblica assume um caráter experimental próprio, embora tenha sofrido a perda de sua excepcionalidade como documento único em seu gênero literário em virtude da descoberta e tradução de manuscritos milenares produzidos por civilizações circunvizinhas dos hebreus. Seu estudo demonstra que a concepção tanto hebraica, quanto dos povos orientais antigos, sobre a origem do mundo e da vida manifestavam uma natureza mítica, o que só era possível recorrendo a tradições narrativas de culturas contemporâneas ou anteriores.

Responsável por delinear o pensamento religioso ocidental dos últimos séculos, a narrativa bíblica encontra suas raízes nos primeiros capítulos de Gênesis. Estudiosos afirmam que esses textos foram escritos em épocas diferentes, alguns no século X e outros no século VI a.C. As primeiras narrativas surgiram logo após o estabelecimento do povoado de Israel na região de Canaã e se ocuparam em registrar sua própria história sob a magnífica ação divina que então passar a ser projetada nas origens do gênero humano. A condição do exílio (587-538 a.C.) e pós-exílio (538-450 a.C.), período histórico caracterizado pela experiência de perda para a nação israelita, é o pano de fundo mais provável para a redação final. O traumático exílio babilônico provocou a perda da esperança popular nas promessas divinas, haja vista que os sinais visíveis da Aliança deixaram de existir. O suntuoso Templo fora destruído, a terra prometida fora invadida e suas melhores lideranças levadas cativas. Restou somente desolação, fome, doença e o caos, simbolizado pelas águas, densas trevas, secura e morte. Porém, entre as ruínas da destruição, pairava o ruach (tr. espírito, vento) do Senhor capaz de outorgar vida (ARTUSO, 2019, p. 49). Esse contexto se tornou um cenário ideal para o desenvolvimento de extensa literatura teológica e espiritual, como as narrativas deuteronomistas e proféticas, escritas à luz da fidelidade ou infidelidade popular com a intenção de provocar a conversão, anunciar a consolação, a esperança da volta para Israel e a reconstrução do Templo.

Nesse contexto também Gn. 1-11 foi escrito para trazer vida e esperança. A reflexão sobre o sentido da vida, as origem, o problema do mal, do sofrimento, surge da experiência da perda. É preciso rever a história, tirar uma lição dos fatos, voltar-se para Deus que dá a vida, para superar a crise e recomeçar. Gênesis apresenta, luzes de esperança, em meio à luta pela vida (ARTUSO, 2019, p. 49)

Como dito, a noção de criação é antiga e registrada por outras culturas do antigo oriente, com algumas das quais os hebreus tiveram contato em lapsos exílicos ou diaspóricos, em particular, as culturas egípcia e mesopotâmica (babilônica). Não obstante, algumas semelhanças podem ser observadas entre a narrativa hebraica e tais tradições orientais. Segundo TAVARES (1978, p. 52), as semelhanças entre a narrativa bíblica e as tradições orientais antigas possivelmente se originaram em um estágio pré-literário de tradições comuns.

Ao contarem as origens do mundo e concretamente da humanidade, os autores bíblicos foram beber direta ou indiretamente às tradições do Próximo Oriente Antigo. Embora haja pontos de contato com o Egito, as semelhanças parecem maiores com os textos da Mesopotâmia. Isto não quer dizer necessariamente dependências literárias. As semelhanças podem ter origem num estádio pré-literário de tradições comuns, em que havia várias maneiras de apresentar a criação (TAVARES, 1978, p. 52)

O tema da criação, narrado pelos mitos mesopotâmicos em forma poética (Épico de Atrahasis e Enuma Elish), chegou até os hebreus que redigiram e deram forma literária ao livro de Gênesis. Vale ressaltar, contudo, que os autores bíblicos não imitaram servilmente as tendências da tradição antiga e adaptaram as expressões literárias à realidade específica de seu povo. Quando interpretado em sentido mais teológico e menos literal, o mito cosmogônico hebraico apresenta elementos antropológicos exclusivos e o ideal de liberdade como fator determinante para a criação. SANCHES (2007, p. 6) destaca o ideal de liberdade para o qual Deus cria a humanidade: “Afirma-se assim a liberdade de Deus, combate-se as ideias que tentariam impor limites a Deus, e por outro lado mostra que a criação foi uma decisão de Deus, realizada somente por Deus e por ele mesmo, pela sua palavra.”

O autor de Dêutero-Isaías (Is. 40-55), ao anunciar a libertação do povo israelita dos domínios babilônicos (587-538 a.C.), proclama Deus como salvador e, por conseguinte, o criador. A primeira narração genesíaca parte desse contexto, enquanto a segunda registra os frutos da libertação do Egito, tempos depois da consolidação monárquica em Israel.

Essas experiências de libertação demonstram que Deus desejava para si um povo livre de todas as servidões, o que impunha ao povo responder com amor e obediência às alianças propostas por seu libertador. A maestria dos autores hebraicos reside no modo em que se elevaram da história de um povo particular para a história de todos os povos. Partindo do pressuposto de que Deus é o libertador de uma história particular, deduzem que logo é o senhor de toda história, criando a humanidade para a liberdade.

Com o objetivo de situar a narrativa hebraica, da qual procede a tradição bíblica da criação, em seu contexto histórico, julga-se necessário examinar em primeiro instante o universo cultural no qual os textos de Gênesis se situaram, para então destacar sua originalidade e valor particular.

3- Comparação dos relatos bíblicos com relatos do antigo oriente

A reflexão antropológica não era desconhecida no Antigo Oriente, embora não tomasse contornos abstratos a exemplo dos filósofos gregos do século IV a.C. Os primeiros textos são documentos econômicos, nos quais se pode constatar questões fundamentais da existência, da relação com potências cósmicas, do misterioso universo dos deuses, do sentido da vida e das incertezas do destino (GRELOT, 1973, p. 13).
Os primeiros registros escritos discorrem sobre a origem do cosmos e por se tratar de uma literatura mítica própria de uma mentalidade acientífica, sua leitura exige uma adequada metodologia hermenêutica. Para tanto, constitui trabalho indispensável para o leitor moderno o exercício eventual da desmitologização, uma vez que essa literatura ora transparece uma visão de conjunto com certa unidade gnosiológica, ora uma história de carga lendária e fantasiosa sem consistência. Essa expressão literária se tornou o meio preferido das primeiras civilizações orientais por registrar ideias religiosas através de imagens e símbolos que lhe proporcionam penetrar no terreno do divino.

Por detrás das narrativas míticas de conteúdo cosmológico, em que transparecem certos exageros de fantasia em relação ao universo divino e profano, cabe lembrar que deveras há algo de verdadeiro e desafiador no que concerne ao ser humano. Uma minuciosa consulta às concepções da criação humana abordadas nos textos mais representativos do Egito, da Mesopotâmia e dos Hebreus, permitirá enumerar elementos similares a essas narrativas e destacar novidades nos relatos de Gênesis.

3.1- Criação humana nas narrativas egípcias

A antiga civilização oriental oriunda do extremo norte africano, concentrada ao longo do curso inferior do Rio Nilo, construiu um complexo conjunto de lendas cosmológicas, que assumem variantes conforme as regiões. Na antiga cidade de Heliópolis, conhecida no Egito como berço de todo panteão, se atribua ao deus Atom um papel decisivo na criação. Não obstante, era adorado como deus primordial e criador desde o Antigo Império. Datados de aproximadamente 4500 anos, os Textos das Pirâmides representam Atom em uma colina primordial emergente das águas do imenso oceano, conhecido por Nun. Os textos registram, além do surgimento de Atom (em algumas traduções chamado Rá), o nascimento de outros oito deuses, juntos reverenciados como a Grande Eneade: Shu, deus do ar; Tefnut, deusa da umidade; Geb, deus da terra; Nut, deusa do céu; e os deuses Osiris, Isis, Seth e Nephtys.

Em vários textos do Antigo Egito, o deus Atom é definido como uma divindade autocriada e pré-existente. Nos textos recolhidos pelo antropólogo britânico James Pritchard (1786-1848), é possível encontrar uma antiga referência à origem de Atom: “o que veio à existência por si mesmo”. Não há dúvidas quanto à possibilidade de estabelecer um paralelismo com a revelação nominal do Deus bíblico, como narrado no famoso episódio de Êxodo 3,14, designado por quatro consoantes YHWH (“Eu sou o que sou ou o que existe”), indicando sua autoexistência. Possivelmente esse título tenha origem pré-israelita (TAVARES, 1978, p. 38).

Datado de pelo menos dois milênios antes de Cristo, em escrita hieroglífica, outro expressivo manuscrito egípcio conserva um curioso mito baseado em uma antiga crença, segundo a qual o navio do deus-sol Re, viajava por sobre os céus durante o dia e por baixo dele à noite. Contudo, na viagem noturna, enfrentava o risco da destruição por um ameaçador dragão que se escondia embaixo da terra, cujo nome era Apófis. Para esconjurar o dragão, perigoso inclusive para a humanidade, um ritual mágico era celebrado no templo. Seus registros contém referências à criação humana.

O senhor-de-tudo disse, após ter vindo à existência: Eu sou o que veio à existência como Kepri. Quando vim à existência, foi o próprio existir que veio à existência, e todos os seres existiram depois de mim. Muitos são os seres que saíram da minha boca antes de o céu, a terra, o campo e os répteis serem criados no seu lugar. Eu pus em conjunto alguns deles em Nun como seres incómodos, antes de eu poder encontrar um lugar onde pudesse estar. Parecia vantajoso para mim, cá no meu íntimo; eu planeei com a minha face; e concebi (fiz em conceito) cada forma, quando eu estava só, antes de eu ter desovado aquilo que foi Shu, antes de eu ter cuspido aquilo que foi Tefnut, e antes de qualquer outro ter vindo à existência e que pudesse atuar comigo. Eu planeei no meu próprio coração e veio então à existência uma multidão de formas de seres, as formas das crianças e as formas dos seus filhos. Eu fui o único que pratiquei cópula com a minha mão fechada, masturbei-me com a minha mão. Depois vomitei com a minha boca. Eu desovei aquilo que foi Shu e cuspi aquilo que foi Tefnut. Foi meu pai Nun que os criou, e o meu olho seguiu-os desde as idades em que estavam distantes de mim. Depois de eu ter vindo à existência como único deus, houve três deuses a seguir a mim. Vim à existência nesta terra, enquanto Shu e Tefnut sentiam prazer onde estavam. Eles trouxeram-me o meu olho com eles. Depois de eu ter juntado os meus membros, chorei sobre eles. Foi assim que vieram à existência os homens, a partir das lágrimas que saíram do meu olho (PRITCHARD, 1955, p. 3)

Embora alguns trechos do texto despertem dúvidas, é possível notar que o deus Re (ou Atom) se intitula como aquele que existe por si mesmo, anterior a todos os outros seres, criados por ele pelo poder de sua palavra. Nele se exprime um conceito elevado de divindade, uma força transcendente que se manifesta pela pronúncia de suas palavras criativas, a exemplo da divindade hebraica, o Deus bíblico que ordena “faça-se”, narrado nos primeiros versos de Gênesis. Chama a atenção o fato de que o deus criador trouxe à existência seres que havia primariamente idealizado. A referência utilizada no processo concreto da criação parece afirmar que os seres, em especial Shu e Tefnut, surgiram de suas lágrimas.

Quando o deus Re percebeu que seu olho vagava perdido fora de seu corpo, chorou copiosamente sobre seus membros. Para substitui-lo, criou então outro olho que desagradou ao perdido na ocasião do seu regresso. O deus então o acalmou ao colocá-lo na sobrancelha, símbolo de poder. O antropólogo Pritchard afirma haver uma elaboração literária na explicação da criação humana que alterna os termos remit (tr. lágrimas) e romet (tr. humano). Um elemento esclarecedor, entretanto, que desperta a atenção é que o ser humano nasce das lágrimas do deus.

Como expressões de uma crença generalizada, vários manuscritos do Antigo Egito repetem a afirmação da criação humana a partir das lágrimas divinas, afim de salientar que todos foram criados em igualdade pelo deus-sol. Outro trecho de um texto escrito no Império Médio, de cerca de 3000 a.C., descreve: “Eu trouxe à existência os quatro deuses a partir do meu suor, ao passo que os homens são as lágrimas do meu olho”. Pode-se supor que estes quatro deuses, e não os nove habituais, são encarregados de assistir o homem morto em sua passagem para o submundo. Segundo o texto, embora sejam provenientes da mesma fonte, os deuses provém do suor do criador e os homens de suas lágrimas.

O texto registrado nas paredes dos túmulos dos faraós Seti I, Ramsés II e Ramsés III na cidade de Tebas, entre os séculos XIV e XIII a.C., reproduz informações de mitos mais antigos. Um dos trechos afirma: “Então Re disse a Nun: ‘Oh mais antigo dos deuses por quem eu vim à existência, deus ancestral, olha para a humanidade que veio à existência a partir do meu olho. Olha o que fizeram contra mim…”.

Outro produto literário da antiga cultura egípcia data do século XVI a.C. e remete a um belo hino de adoração ao deus-sol, Amon-Re, na região de Karnac. A seguinte passagem contém referências à origem da humanidade: “Tu és o único que fez o que existe, de cujos olhos saiu a humanidade e de cuja boca os deuses vieram à existência…” (PRITCHARD, 1955, p. 11).

Apesar de suas variantes e eventuais sincretismos, alguns textos da complexa religião egípcia se dedicam a apresentar a origem da humanidade em posição de realce, uma vez associada à criação dos deuses. Algumas apresentam o deus Atom como supremo criador, outras o deus Amon. No entanto, todas concordam ao afirmar de modo poético que o ser humano surge a partir das lágrimas de um deus, com o intuito de destacar sua dignidade especial por trazer algo divino em sua natureza.

3.2- Criação humana nas narrativas mesopotâmicas

Entre a riquíssima herança literária da civilização mesopotâmica, a reflexão antropológica se desenvolveu em obras muito diversas que se utilizaram de pelo menos dois gêneros literários para exprimir o mais elevado pensamento, a saber, a lenda e o mito. Assim como no Egito, os mitos das origens assumem diferentes formas segundo os locais de escrita. Cada cidade das civilizações paralelas da Suméria e Acade possuía seu deus principal, em torno do qual, surgiam lendas e tradições. Ambas forneceram costumes, rituais e estilos literários a todos os povos do Médio Oriente.

Na importante cidade suméria de Nippur, fora edificado um templo religioso ao deus Enlil, criador da humanidade. Criou o homem modelando com suas próprias mãos, como um oleiro. Em Eridu, outra importante cidade suméria próxima da foz do Rio Eufrates, no atual Iraque, a explicação para a criação humana parte da disputa entre os deuses, que por tanto se multiplicarem, tinham que servir uns aos outros. Parte de Namu, primeira das Grandes Deusas-Mães, a iniciativa de pedir ao seu filho Enki para criar os homens, que seriam encarregados de prover às necessidades dos deuses. Nasce, então, a humanidade criada de argila amassada com sangue divino (TAVARES, 1973, p. 43).

Quando os acádios invadiram a Suméria a partir de 2350 a.C., subjugando o seu povo à servidão, foram influenciados por sua cultura. Deram preferência aos mitos de Eridu no que concerne à origem da humanidade, como se pode constatar na Epopeia de Atrahasis.

A Epopeia de Atrahasis (o muito inteligente), cujo nome faz menção ao herói protagonista do poema, é composta por três cantos escritos na Babilônia por volta do século XVI a.C. Segundo GRELOT (1973, p. 18), a obra poética consta de cerca de 1645 linhas que parecem ligar o mito das origens com a história primitiva do dilúvio. Após a revolta dos deuses por terem de providenciar sua própria subsistência, trata-se da criação do homem para servir aos deuses inferiores (igigi) oprimidos até então pelos deuses superiores (Anunaqui). Devido ao flagelo que os deuses quiseram impor sobre a humanidade, os homens se revoltaram por serem obrigados a lhe prestar serviço. O panteão decide destruir a humanidade, porém o grande sábio Atrahasis, seguindo os conselhos de seu deus Enki-Ea, a livra da total destruição. Para ARTUSO (2019, p. 50), nota-se claramente um contraste entre a perspectiva épica e bíblica no que se refere à criação humana:

Na Epopeia de Atrahasis, o ser humano é criado para livrar os deuses de seu castigo. Na Bíblia, Deus cria o humano desinteressadamente. Tanto na epopeia há o elemento humano (barro) e o elemento divino (sangue de um deus decaído). Na Bíblia temos o barro como elemento humano e o sopro divino que torna o homem ser vivo. Na epopeia o ser humano participa da divindade, mas se trata de um deus decaído. Na Bíblia, a perspectiva é mais otimista. Também o ser humano participa da divindade sendo criado imagem e semelhança do criador. É criado da argila, tem um sopro de vida que vem do Deus único que é vencedor do caos.

Semelhantemente, na Epopeia de Gilgamesh, rei de Quis, o protagonista parte para a ilha do paraíso, além das portas do sol e das águas da morte, objetivando conquistar o segredo da imortalidade de Utanapistim, o herói do dilúvio. No entanto, ao tentar colher o segredo da planta da vida, uma serpente a rouba, não restando ao homem outra alternativa senão criar um nome para si e em seguida morrer (GRELOT, 1973, p. 17-18). A esse respeito, ARTUSO (2019, p. 51) comenta:

Diferente da Epopeia de Gilgamesh, Gênesis relata uma história positiva, acrescentando a promessa de que a serpente será vencida (Gn. 3,14) pela descendência da própria humanidade. Homem e mulher cederam à tentação da serpente, perderam o privilégio de continuar no Jardim de delícias, porque preferiram a ciência do conhecimento do bem e do mal ao invés de participar da árvore da vida. Porém Deus não os abandona. Toma partido do ser humano, amaldiçoa a serpente e promete que haverá uma salvação futura.

O poema babilônico Enuma Elish (quando no Alto), recitado ao decorrer das festas de ano-novo, ganhou forma no século XIV a.C em sete placas de argila. Por sua fama e divulgação, esse mito das origens tornou-se o mais conhecido de sua época a narrar o papel do demiurgo, o criador ou organizador universal. Foi composto em honra ao deus Marduk (denominado Bel, ou seja, senhor), que segundo a tradição babilônica, suplantou o deus Enlil.

No começo de tudo, quando ainda não havia céu nem terra, nem existiam os próprios deus, havia somente um caos indistinto constituído pela imensidade das águas primordiais: Apsu (águas doces embaixo da terra) e Tiamat (águas salgadas do mar). Delas surgem as potências cósmicas, identificados como deuses. O mais hábil é Ea, que derrota Apsu e cria o abismo. No entanto, Tiamat reage contra os deuses, os quais delegam poder a Marduk que, por sua vez, vence e o divide em duas partes: com uma constrói o céu e com outra constrói a terra e o mar (A CRIAÇÃO E O DILÚVIO, 1990, p. 15-16). Seguida à instalação do céu e do mundo, cujas regras são determinadas por Marduk, a criação humana aparece novamente para a prestação de serviços aos deuses.

Marduk, ouvindo o apelo dos deuses, resolveu criar uma obra-prima. ‘Farei canais de sangue, formarei uma ossatura e suscitarei um ser, cujo nome será: homem. Sim, vou criar um ser humano, um homem! Que sobre ele recaia o serviço dos deuses, para o bem-estar deles!’ (GRELOT, 1973, p. 31)

Dessa vez, Quingu, chefe dos deuses revoltosos, é sacrificado para criar a humanidade. GRELOT (1973, p. 31) destaca: “Vê-se que o homem não é somente súdito e escravo dos deuses, aos quais serve, prestando culto, mas também o joguete das potências cósmicas, que fazem pesar sobre ele uma fatalidade inexorável”.
Segundo o mito, o mundo resulta da luta entre os deuses identificados com as águas doces e salgadas, enquanto que no relato bíblico sacerdotal, os céus são sustentados pelo firmamento e todas as coisas são criadas pelo poder da palavra de Deus. Em meio às águas primordiais, que representam o elemento mítico do caos genesíaco, pairava o espírito (ruach) criativo e organizador do cosmos.
Outro mito que atribui ao deus Marduk as prerrogativas da criação foi encontrado na cidade de Sippar, na época neobabilônica, e ficou conhecido como cosmologia caldaica. Além da criação dos importantes rios para a civilização mesopotâmica, Tigre e Eufrates, e dos animais e plantas, o texto pretende afirmar que a deusa Aruru modelou a argila e Marduk soprou a vida no homem.

3.3- Criação humana nas narrativas hebraicas.

Conquanto empregados pelos hebreus gêneros literários semelhantes aos dos sistemas religiosos do Oriente antigo, convém salientar que seu conteúdo, em assuntos essenciais, revela um pensamento radicalmente novo. Desde o passado imemorial, a religião semítica rompe com as demais tradições orientais ao prestar um culto monoteísta (GRELOT, 1983, p. 20). A despeito das forças cósmicas personificadas pelos antigos orientais como potências decaídas de sua posição divina, “Iahweh, o Deus que se manifestou aos patriarcas e a Moisés, se torna, a partir da saída do Egito, o Deus de Israel: ele é o Deus único, só a ele se presta culto”. Entretanto, a ruptura semítica com os sistemas religiosos antigos não foi total, o que se pode constatar nos títulos atribuídos a Deus (El e Iahweh, reinterpretações bíblicas de nomes divinos mais antigos) e na prestação de culto, cuja forma era conhecida na antiguidade oriental. A exclusão de outras divindades supõe um significativo processo de desmitização, possibilitado por uma lenta adaptação da mentalidade corrente dos israelitas, na qual o homem deixa de ser a vítima de conflitos entre divindades opostas para se tornar a obra prima da criação dotado de elevada dignidade.

Segundo a teoria documentária clássica, o primeiro volume bíblico, que resume a concepção cosmogônica hebraica, apresenta dois relatos da criação identificados com duas tradições entrelaçadas. O relato mais antigo, oriundo da tradição Javista (simbolizada pela letra J), foi composto no tempo do reinado de Salomão (970-931 a.C.) e pode ser encontrado no capítulo II, mais precisamente a partir da segunda metade do verso 4. Fortemente identificada com um estilo popular, com histórias e imagens ingênuas narradas em linguagem antropomórfica, a narrativa representa a mentalidade humana primitiva habituada com o pequeno espaço geográfico que a rodeia. A narrativa Javista poderia introduzir os textos da tradição Sacerdotal (simbolizada pela letra P – de Priester Codex), que descrevem a ação magnífica de Deus sob imagens inesquecíveis e apresentam o ser humano como sacerdote da criação (ARTUSO, 2019, p. 54).

Quando o Senhor Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto no campo nem tinha ainda germinado qualquer erva, pois o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra nem havia ninguém para a cultivar. Só havia uma espécie de fonte que regava a superfície da terra. O Senhor Deus tomou então pó da terra e fez daí um homem: insuflou-lhe nas narinas o sopro de vida e o homem começou a viver. (Gn. 2,4b-7)

O texto Javista, estruturado com muita arte, descreve primeiramente as condições primitivas do mundo precedentes à criação humana. Esse modelo remete a um conjunto de mitos tradicionais sobre a criação de origem vétero-oriental em que o mundo, caracterizado pela falta absoluta de vegetação, precisa de umidade para possibilitar o desenvolvimento da vida vegetal. Tal elemento poderia ser obtido pela captação das águas pluviais ou através da interferência externa para irrigar a terra e torná-la fértil. Caberia, portanto, ao homem providenciar a irrigação. A despeito da narrativa sacerdotal, o ser humano entra em um sistema que não lhe oferece a menor possibilidade de vida, não fosse a interferência divina. As demais criaturas viventes são criadas após o homem, afim de satisfazer suas necessidades vitais. Quanto à origem humana, o mito javista recorre à tradicional formação do homem a partir do barro que, graças à infusão do hálito vital, se torna um ser vivente (LORETZ, 1979, p. 122-123).

A terminologia “homem” empregada no trecho bíblico alude ao radical hebraico “adam”, derivado de “adamach”, que significa terra, tratando-se de um título coletivo. Quanto à criação do homem e da mulher, o idioma original se utiliza do mesmo étimo (hebraico “ish”-homem e “isha”-mulher) no intuito de indicar a natureza de igualdade entre os dois. A origem da mulher a partir da extração de uma costela masculina pode indicar possível paralelismo com o poema sumério “Dilmun”, no qual a deusa Ninti fora criada para curar a costela do deus Enki. O nome da deusa, inclusive, significa “senhora da costela” ou “senhora criadora da vida”, assinalando certa semelhança com o texto bíblico narrado em Gênesis (KRAMER, 1963, p. 172-173).
A outra tradição, a que se atribui a primeira narrativa da criação humana, liga-se à fonte Sacerdotal, na qual o homem constituía a sétima e última obra divina no esquema de sete dias criativos. Trata-se de uma narrativa de teor mais abstrato e teológico, que pretende atribuir uma classificação lógica dos seres segundo um planejamento organizado e executado em um quadro de seis dias, sendo o sétimo dedicado ao descanso. A nova exposição do texto revela que o homem assume um caráter relativo em relação a Deus.

Por fim Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele mande sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais da terra e sobre os animais pequenos que se movem e rastejam sobre a terra. Foi assim que Deus criou o homem à sua imagem. Criou-o à sua semelhança. Criou-os homem e mulher. Depois abençoou-os dizendo-lhes: crescei e multiplicai-vos, povoai e dominai a terra…” (Gn. 1,26-28)

O autor bíblico se utiliza de uma linguagem marcante para expressar o caos primitivo e a ausência de vida antes do início do processo criativo. Pode-se recordar a potência mesopotâmica Tiamat no sentido de designar a massa informe das águas primordiais quando o autor menciona o termo “abismo”, tradução do hebraico “tehom” (TAVARES, 1973, p. 52). Sobre a face das águas, adejava o espírito (tr. “vento” ou “sopro”) como uma ave que sobrevoa seu ninho para aquecer e alimentar seus passarinhos. Nesse sentido, o espírito de Deus adeja sobre o abismo para gerar vida.

Embora a expressão pareça não ser clara, o texto afirma que o homem foi criado à imagem e semelhança do criador. Provavelmente, o vocábulo “imagem” descreve a aparência material, enquanto “semelhança” se refere à dimensão espiritual ou ainda alude ao domínio humano sobre toda a criação divina.

4- A contribuição dos relatos antigos para a compreensão da origem do ser humano

Mesmo que a expressão mítica seja carregada de significativos traços culturais delineados por sistemas religiosos de passado imemorial, seria um erro afirmar trata-se de um gênero literário anacrônico e sem valor histórico. O mito ainda é uma realidade presente alicerçada sobre a força da crença humana. Não obstante, uma infinidade de mitos, antigos e modernos, ainda é difundida, seja porque as comunidades continuam crendo em sua validade ou porque ajudam o ser humano a atribuir uma carga de sentido e significação às coisas ao seu redor. A crença humana nos mitos estabelece, portanto, uma sintonia com as potencialidades espirituais da vida (SANCHES, 2007, p. 5).

Constitui uma possibilidade válida aceitar as expressões míticas e ao mesmo tempo as teorias científicas atuais, intuindo compreender o funcionamento da natureza e o sentido de sua existência, ou seja, como a humanidade chegou até o presente e qual o sentido de sua existência. Embora por vezes sejam objetos de contradições, teorias e mitos, ciência e religião, se tornam campos do conhecimento complementares, presentes em toda história humana. Tanto a humanidade dos tempos pré-históricos, como contemporânea, continua a construir e a destruir teorias e mitos, “sempre que o conhecimento exigir um método mais adequado ou uma crença mais bem fundamentada”. Contudo, vale destacar que, na perspectiva cronológica, as teorias científicas são abandonadas mais regularmente do que as crenças.

Por representar uma perspectiva de realidade nem sempre coincidente com a visão defendida pela sociedade científica atual, os mitos sofreram contínuas releituras após o advento científico. Por fundamentar a crença monoteísta quanto à origem humana, o mito bíblico de Adão e Eva passou a ser interpretado por grupos cristãos em um sentido mais teológico e menos literal, a fim de afirmar a liberdade divina e o poder de sua palavra, instâncias decisivas no contexto da criação. Dessa forma, pode-se inferir que a intenção do conceito bíblico de criação não seria defender a formação dos cosmos, mas destacar a decisão de construir sentido de existência frente ao pertencimento a Deus.

Os relatos antigos estabelecem um vínculo com as teorias científicas ao apresentar uma determinada ordem na criação e na natureza, oposta ao caos. Permite-se inferir que se existe ordem, logo se torna viável a compreensão, o estudo e a análise da natureza. As pesquisas científicas são possíveis graças à organização universal, compreensíveis à capacidade intelectual da humanidade. A tarefa de responder como a compreensão do universo pode ser perfeitamente acomodada à mente humana pode ser outorgada ao mito, cuja perspectiva pode atribuir um sentido mais amplo à indagação.

5- Considerações finais

Ao narrarem as origens cósmica e, em particular, a humana, os autores bíblicos encontraram inspiração em fontes cosmogônicas de outros sistemas religiosos desenvolvidos no Antigo Oriente. Segundo TAVARES (1973, p. 52), as semelhanças, que aparentemente são maiores com a mitologia mesopotâmica do que com a egípcia, provavelmente deriva de um estágio pré-literário de tradições comuns que representavam a criação de forma variável.

Não seria possível que os mitos egípcio e mesopotâmico, com quem os hebreus tiveram prolongado contato, fossem ignorados pelos autores que deram forma literária ao relato de Gênesis. Entretanto, na medida em que suas narrações são constituídas, no plano literário, por um colorido mítico, seu valor particular reside na transmissão de uma mensagem original, que apresenta uma nova concepção de Deus, seus propósitos universais e seu relacionamento com a humanidade, em especial com a nação hebraica.

Portanto, cabe ressaltar que os escritores bíblicos não imitaram servilmente as tradições religiosas de outras culturas orientais, antes repensaram tais heranças culturais, adaptando-as às tradições de seu povo a fim de salvaguardar sua fé monoteísta. Por conseguinte, a criação deixa de ser concebida como fruto de conflitos entre divindades rivais para ser efeito da poderosa palavra criadora de Deus.

As narrações descritas no primeiro capítulo de Gênesis resgatam ainda a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus que lhe insufla o hálito da vida, e não a partir das lágrimas ou do sangue divino, como defendiam as mitologias egípcia e mesopotâmica da criação. Embora reconheça que dependa de Deus e deva obedecê-lo para experimentar a liberdade segundo a aliança proposta por ele, o ser humano deixa de ser concebido como um escravo, forçado a trabalhar a serviço dos deuses. Constitui a obra prima da criação, encarregada de exercer domínio sobre a terra e os seres viventes.

Tanto homem como mulher assumem elevada dignidade como fonte de vida na sociedade, fundada sobre a força do amor humano. Desta plena relação de correspondência entre homem e mulher, atribuída ao fato de que ela fora plasmada de uma parte dele, ambos se deparam tão fortemente atraídos um pelo outro, face este novo amor, que até o amor pelos próprios filhos e pais se mostra enfraquecido (LORETZ, 1968, p. 131).

Embora o avanço do conhecimento científico tenha proporcionado melhorias na qualidade de vida, o ser humano segue na busca de um sentido para responder suas aspirações mais íntimas. Encontra no sistema religioso um suporte espiritual que lhe possibilita construir valores morais e atribuir um novo sentido para a vida.


Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Teologia, apresentado por Athos Ayres. Orientador: Prof. Dr. Vicente Artuso.

REFERÊNCIAS

  • ARTUSO, Vicente. A relação: Deus, ser humano e todo ser vivo em Gn 1-11. In: Luiz Alexandre Solano Rossi (Organizador) Teologias do Antigo Testamento. Liberdade, Justiça e Solidariedade. São Paulo: Fonte Editorial, 2019.
  • AYMARD, André. O oriente e a Grécia antiga. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
  • BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1973.
  • CORDENAU, Georges. A vida cotidiana na Babilônia e na Assíria. Lisboa: Editora Livros do Brasil, 1968.
  • FRANKL, Viktor E. Psicologia profunda e dimensão antropológica. Berlim, 1967, p. 344.
  • FREUD, Sigmund. Palestras de introdução à Psicanálise. Londres, 1940, p. 294.
  • GLEISER, Marcelo. A dança do Universo: Dos Mitos de Criação ao Big-Bang. São Paulo: Companhia de Bolso, 1997, p. 4-16.
  • GRELOT, Pierre. Homem, quem és? Paris: Editions du Cerf, 1973, p. 7-39.
  • HEITLER, W. A figura humana como objeto das ciências naturais. Berlim, 1967, p. 722.
  • KRAMER, Samuel N. A história começa na Suméria. Lisboa, 1963, p. 172-173.
  • LORETZ, Oswald. Criação e mito: homem e mundo segundo os capítulos iniciais de Gênesis. São Paulo: Edições Paulinas, 1979, p. 5-49.
  • MONTEIRO, Aldora et al. A visão da mulher na antropologia: mitos da criação e crenças em relação à gravidez. São Paulo: Millenium, 2016, p. 38-50.
  • PRITCHARD, James. Textos antigos do Oriente Próximo relacionados ao Antigo Testamento. Princeton, 1955, p. 3-11.
  • SANCHES, Mario A. . Origem da vida: Uma perspectiva mitológica. Edição especial Scientific American Brasil, v. 7, p. 9-15, 2007.
  • TAVARES, Antônio Augusto. A criação do homem nos mitos das origens. DIDASKALIA, v. 008. Lisboa: 1978, p. 35-54.
  • VV. AA. A Criação e o Dilúvio segundo os textos do Oriente Médio Antigo. São Paulo: Paulinas, 1990 (Documentos do Mundo da Bíblia-7).

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