Eu preciso te fazer uma pergunta direta logo de entrada.
Você, que é pastor, líder, ou simplesmente um filho de Deus que se importa com a igreja, você ainda acredita que o modelo que funcionou nos anos 80 e 90 vai continuar funcionando nos próximos 20 anos?
Porque se você acredita nisso, eu tenho uma notícia difícil para te dar.
O mundo mudou. E a igreja precisa acordar para isso.
Não estou dizendo que a mensagem mudou. O Evangelho é eterno, imutável, poderoso. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, disse Jesus em Mateus 24:35. Isso é rocha sólida debaixo dos nossos pés.
Mas o contexto onde essa mensagem precisa ser pregada? Esse mudou completamente.
O Chão Que Some Debaixo dos Nossos Pés
Quem já viveu num Brasil onde a maioria das pessoas se identificava como cristã, onde os valores bíblicos ainda tinham algum peso no debate público, onde a família tradicional era referência cultural, sabe que esse mundo não existe mais da mesma forma.
Não da mesma forma.
A sociedade pós-cristã não é uma sociedade que nunca ouviu falar de Jesus. É muito pior do que isso. É uma sociedade que já ouviu, já teve contato, e deliberadamente decidiu que não precisa mais. É uma geração que conhece os termos bíblicos e os usa contra a própria Bíblia.
E aí você, pastor, entra no culto no domingo. Olha para os seus jovens. E percebe que metade deles tem mais dúvidas do que certezas. Que alguns nem sabem mais por que continuam vindo. Que outros saíram silenciosamente pela porta dos fundos, sem brigar, sem fazer escândalo. Simplesmente foram embora.
Isso dói. E precisa doer. Porque quem não sente essa dor não vai buscar a solução.
O Que é a Pós-Modernidade, na Prática?
Muita gente fala em pós-modernidade como se fosse um conceito filosófico distante, coisa de faculdade de teologia.
Mas eu vou te contar como ela aparece na prática, dentro da sua igreja, neste domingo.
A pós-modernidade é a cultura do “a minha verdade”. É quando o jovem senta na sua frente e diz: “Pastor, respeito sua fé, mas eu tenho a minha”. É a geração que cresceu acreditando que toda verdade é relativa, que cada um tem o direito de construir a própria narrativa, o próprio deus, a própria moral.
É o Instagram que entrega em 3 segundos aquilo que você leva 45 minutos de sermão para desenvolver. É o TikTok que ensina teologia em 60 segundos, mas uma teologia sem cruz, sem arrependimento, sem Senhor.
É a geração que quer experiência, não doutrina. Que quer pertencer antes de crer. Que quer ver antes de ouvir.
E olha que coisa interessante: isso não é necessariamente errado. O problema não é a geração. O problema é quando a igreja tenta competir com o mundo usando as armas do mundo e esquece que a sua arma mais poderosa é o Espírito Santo.
Os Três Desafios Reais de Pastorear Hoje
1. O Desafio da Autoridade
Durante séculos, o pastor falava e as pessoas obedeciam. Não porque fossem ingênuas, mas porque havia uma cultura de reverência à autoridade espiritual.
Essa cultura está morta.
Hoje, quando você termina o sermão, metade da sua congregação vai checar no Google se o que você disse é verdade. E não é necessariamente má-fé. É o mundo em que vivemos.
O pastor que não entender isso vai ou se tornar autoritário, exigindo obediência cega, ou vai perder completamente a capacidade de influenciar.
A saída? Não é abrir mão da autoridade bíblica. É conquistar autoridade moral. É ser o pastor que vive o que prega. Que é transparente nas suas lutas. Que diz “eu errei” quando errou. Que não tem medo de perguntas difíceis.
Paulo disse em 1 Coríntios 11:1: “Sede imitadores de mim, como também eu sou de Cristo.” Essa é a autoridade que o século 21 ainda respeita: a autoridade de quem vive de acordo com o que fala.
2. O Desafio da Pertença
Sabe qual é o maior produto do século 21? Não é o celular. Não é o streaming. É o sentimento de pertença.
Todo mundo quer pertencer a algo. A uma tribo, a um grupo, a uma causa. Por isso as pessoas pagam caro para entrar num gym que tem comunidade. Por isso seguem criadores de conteúdo como se fossem pastores. Por isso entram em grupos de WhatsApp às 3 da manhã para se sentir parte de algo.
E a Igreja tem isso. A Igreja sempre teve isso. O problema é que muitas igrejas se tornaram lugares onde você entra, canta três músicas, ouve o sermão, e vai embora sem que ninguém te conheça pelo nome.
Jesus não construiu um auditório. Ele construiu uma comunidade. Doze pessoas que comiam juntas, choravam juntas, duvidavam juntas, cresciam juntas.
O pastor do século 21 precisa criar ambientes de comunidade real, não apenas cultos bem produzidos. Grupos pequenos, refeições compartilhadas, transparência, presença. Isso não é novidade. Isso é Atos 2.
3. O Desafio da Relevância sem Concessão
Esse é o mais delicado de todos.
Há uma pressão enorme sobre os pastores hoje para ser “relevante”. Para falar a linguagem da cultura. Para não afastar as pessoas com uma mensagem que parece antiquada.
E aí acontece um dos maiores perigos da Igreja contemporânea: o pastor começa a moldar a mensagem para agradar ao ouvinte, em vez de moldar o ouvinte pela mensagem.
Isso tem nome. Paulo chamou de “comichão nos ouvidos” em 2 Timóteo 4:3. É quando as pessoas acumulam para si mestres que falem o que elas querem ouvir.
Ser relevante não significa ser popular. Significa ser compreendido. Significa pegar a verdade eterna do Evangelho e comunicá-la de um jeito que o homem do século 21 consiga entender e sentir o peso dela na própria vida.
Jesus foi o mestre nisso. Ele não mudou a mensagem do Reino. Mas falou de campos, de ovelhas, de pão, de vinho, coisas que as pessoas da época conheciam. Ele usou a cultura para alcançar as pessoas com o que estava além da cultura.
O Que a Igreja Precisa Parar de Fazer
Vou ser direto, porque eu acho que você merece honestidade.
A Igreja precisa parar de competir com o entretenimento. Não vai ganhar. A produção da sua igreja nunca vai superar a Netflix. E não precisa superar. O que a Netflix não tem é o Espírito Santo. O que o show não oferece é transformação real. Foque no que só a Igreja pode oferecer.
A Igreja precisa parar de tratar a dúvida como pecado. O jovem que duvida não é seu inimigo. É seu campo missionário. Crie espaço para as perguntas difíceis, sem ter medo das respostas. Fé que não aguenta pergunta não é fé, é superstição.
E a Igreja precisa parar de falar só para quem já está dentro. Se o seu culto de domingo for inteiramente incompreensível para alguém que nunca entrou numa igreja, você tem um problema de missão.
O Que a Igreja Precisa Começar a Fazer
Primeiro: oração que custa algo. Não a oração de protocolo no início e no fim do culto. Oração de intercessão real, de busca, de jejum. Porque o desafio que enfrentamos não é apenas cultural, é espiritual. E batalha espiritual exige armas espirituais.
Segundo: discipulado intencional. Não dá para criar seguidores de Cristo numa sociedade pós-cristã apenas com culto dominical. Precisamos de processos de discipulado profundo, onde as pessoas aprendam a viver a fé no dia a dia, no trabalho, nas redes sociais, no casamento, nas finanças.
Terceiro: missão que sai dos muros. A Igreja foi chamada para ir. “Ide, portanto”, Mateus 28:19. Não é “esperai que venham”. A missão do século 21 começa quando o cristão entra na segunda-feira no trabalho e vive o Evangelho lá, não apenas quando entra no templo no domingo.
Uma Palavra para o Pastor
Se você está cansado, eu entendo.
Pastorear sempre foi difícil. Mas pastorear numa sociedade pós-cristã tem um peso extra: você está construindo contra a corrente. Toda semana você prega convicções que a cultura ao redor rejeita. Você chama as pessoas ao compromisso num mundo que glorifica a autonomia. Você fala de eternidade para uma geração obcecada com o imediato.
Isso cansa.
Mas eu quero te lembrar de uma coisa que Deus disse a Jacó numa noite difícil, quando ele estava sozinho, com a cabeça numa pedra: “Eis que estou contigo e te guardarei por onde quer que fores”, Gênesis 28:15.
Deus não disse isso para Jacó quando ele estava no seu melhor momento. Disse quando ele estava fugindo, sozinho, sem direção clara.
É para esse pastor, cansado, questionado, às vezes sozinho, que Deus diz hoje: eu estou contigo.
A obra que ele começou através de você, ele vai completar. Não pela sua habilidade. Não pela qualidade da sua produção. Mas pela fidelidade do Deus que te chamou.
E isso, meu irmão, muda tudo.
Elton Melo é pastor titular da Primeira Igreja Batista Independente de Curitiba (www.ibicuritiba.org.br), desde 12/12/2015, escritor, palestrante, com formação em Economia, Psicanálise e Produção Editorial. É editor do site www.alcancevitoria.com.
