Pastores fiéis: essa foi a grande recomendação do apóstolo Paulo, escrevendo em sua primeira carta à igreja em Corinto. Ele nos diz: “Portanto, todas as pessoas devem nos considerar servos de Cristo encarregados dos mistérios de Deus. Além disso, o que se requer de todos aqueles que têm essa responsabilidade é que vivam fielmente“. (I Co 4.1-2).Fico aqui pensando nesse tema: Fidelidade pastoral. O que seria? O que abrange? Fidelidade a quem?
Paulo diz: o que se requer. Não é uma opção. Não trata-se de uma possibilidade. É qualificação exigida para o exercício do ministério. Sem ela não existe ministério pastoral bíblico. Qual a abrangência dessa fidelidade?
1. Fidelidade a Deus.
Ante de mais nada, exige-se que o pastor seja fiel a Deus. Isto pode parecer óbvio, mas, na prática, não tem sido assim. Fidelidade exige compromisso, proximidade, intimidade, estar junto, parceria. Dizer que é fiel à Deus e não ter uma vida devocional consistente é estar enganando a si mesmo.
A quem é dedicado o primeiro momento do meu dia? A quem é dirigida minha primeira declaração de amor quando amanhece? A quem meu tempo é consagrado antes de qualquer outra atividade, responsabilidade ou compromisso? Com quem eu mais converso no decorrer do dia? Com qual Pessoa compartilho primeiramente meus planos, meus sonhos, meus dilemas, minhas frustrações, minhas dúvidas e dores? Fidelidade a Deus nasce da intimidade. Brota de um relacionamento pessoal, personalizado e constante.
Tem pastor que é mais fiel à denominação do que a Deus. Fala mais o nome da instituição do que o do Senhor. Tem pastor mais fiel ao Bispo, ao Apóstolo do que ao Supremo Pastor. As ordens ou orientações denominacionais ou de seus líderes não são questionadas, mas acatadas e cumpridas sem nenhuma análise ou reflexão bíblica crítica. Tem muito líder mais fiel à visão, seja ela qual for, do que à Deus.
Um dia teremos que prestar contas a Deus, e o critério não será denominacional, crescimento numérico, fama, número de convertidos ou qualquer outro senão: que sejam achados fiéis.
2. Fidelidade ao chamado divino.
Uma segunda área de fidelidade é o próprio chamado. Fomos chamados por Deus para o ministério da Palavra, como diziam os apóstolos. Uma dedicação exclusiva ao ministério, mesmo que temporariamente alguns precisem trabalhar secularmente para complementar seu sustento.
Mas tem muitos pastores flertando com outras possibilidades. Nos últimos anos a Psicologia e o Coaching tem sido as paqueras mais comuns dos pastores. Uma possibilidade de aumentar os ganhos, uma alternativa ao ministério. Quando as lutas, as dificuldades de relacionamento com os membros da congregação ou a insatisfação pessoal surgem, precisa haver um plano B. Vejo pastores abrindo consultórios de Psicanálise ou Psicologia, pensando em deixar, assim que puderem o ministério ou pelo menos abrirem mão do sustento (prebenda) da igreja para terem maior autoridade ou mais liberdade. Isso chama-se infidelidade ministerial. É trair o chamado divino. É voltar às redes e abandonar a pesca de homens.
Para muitos pastores a amante é a política, quando se candidatam à cargos eletivos e dedicam seu tempo e energia à política.
O chamado é exclusivo. Não pode ser dividido. Não deve ser compartilhado com qualquer outra função.
3. Fidelidade à Palavra.
Esse é um ponto extremamente sensível. Paulo exortou seu discípulo e jovem pastor, Timóteo, dizendo: Prega a Palavra. Hoje se vê muita coisa no púlpito que não é a Palavra. De opiniões pessoais (as mais esdrúxulas) ao Coaching gospel. Pregações focadas na autoajuda são comuns. Mensagens antropocêntricas visando satisfazer, mais do que as necessidades, os desejos humanos. Ouvia há poucos dias uma música muito conhecida que se referindo a Jesus diz literalmente: ele é o resolve tudo. Parece que Jesus virou marido de aluguel e está à disposição não importa qual seja seu problema. Ele não veio para isso. Isto não é Evangelho. Isso não é bíblico. Ele não está à nosso dispor para nos servir em tudo. Ele é Senhor! Nós é que devemos nos submeter incondicionalmente e fazer tudo o que ele ordenar.
Precisamos ser fiéis à Palavra. Dizer o que a Bíblia diz. Nada além disso. Nem um til ou uma vírgula. Existe muita alegoria, muita achologia, muita gritaria no púlpito. As igrejas encontraram muitos substitutos, tais como coreografias, teatros, apresentações, etc. Precisamos retornar à Palavra. Isso chama-se fidelidade.
4. Fidelidade às ovelhas.
Pastor tem compromisso com suas ovelhas. Nenhum pastor tem o direito de sair contando os segredos ou confissões ouvidos no gabinete pastoral, muito menos no púlpito para ilustrar suas pregações. Se ouvimos algo em segredo jamais devemos comentar com quem quer que seja. Tem pastor falando mal dos membros da própria igreja para colegas. Se a ovelha está doente, deve ser curada. Se está ferida, deve ser tratada. Se está rebelde, deve ser disciplinada. Isso é pastoreio. Os podres (as bicheiras) de uma ovelha, precisam ser urgentemente receber os cuidados devidos. Nenhum pastor tem o direito de deixar a ovelha bichada e sair compartilhando com colegas pastores. Isso só tem um nome: infidelidade.
Se realmente tiver que reclamar com alguém, reclame com o Dono do rebanho. Peça a ele sabedoria para lidar com as situações difíceis de seu rebanho.
Conheço muitos pastores que vivem à caça de bodes em seus rebanhos. Estão errados. Fomos chamados para pastorear o rebanho. E todo rebanho tem ovelhas e bodes. Um pastor fiel pastoreia ovelhas e bodes. O maior problema nesse caso é que, na maioria das vezes, o pastor acaba matando ovelhas e deixando os bodes vivos e, em muitos casos, aliando-se à eles. Um dia o dia do juízo o Pastor irá separar bodes e ovelhas. Ele o fará. Não é prerrogativa pastoral fazer isso. Por mais trabalho que isso dê, pastoreie a todos, ovelhas e bodes. A fidelidade está em apresentar a Jesus o rebanho que ele lhe confiou. Ovelhas e bodes. Ele fará a separação.
5. Fidelidade à igreja local.
Muitos pastores pastoreiam uma igreja, mas vivem se candidatando ao pastorado de outras. Seja por causa do salário, do tamanho da cidade, da importância, do número de membros da igreja pretendida, ou quaisquer que sejam os critérios estabelecidos. Essa insatisfação não irá passar com uma simples mudança de igreja. Não importa onde você estiver pastoreando. O problema é pessoal, é íntimo. Sempre irá existir uma igreja mais desejável do que aquela em que se está. Quem não ama o que tem, não tem o direito de reclamar do que não possui. Essa insatisfação infiel tem como causa o Ego. É uma insatisfação egoísta, carnal e eivada de orgulho. Você nunca fará um bom trabalho se seu coração não estiver naquilo que você faz. Estar numa igreja por ser esta a única opção é infidelidade. A opção não está em entregar o pastorado e esperar uma igreja melhor, mas em arrepender-se de sua atitude, aprender a amar sua congregação e dar o seu melhor para ela.
Gosto muito da versão que usa a expressão que sejam achados fiéis no texto supra citado. Minha oração é esta: que os pastores hoje sejam achados fiéis. Que eu seja achado fiel. Para a glória de Deus.