Blog

Tribos urbanas atuais: o que são e como evangelizar

Legibilidade 54,7
Tempo de leitura 12 min
Palavras 2.399
 
A evangelização das tribos urbanas não se dá no confronto, mas na identificação, na valorização do que é belo naquela subcultura. O esforço deve ser o de encontrar os valores do reino de Deus nos traços culturais. Certo missionário, que trabalhava com uma comunidade punk, passou anos evangelizando em um prédio invadido, sem muito êxito. Um dia, seu rato de estimação morreu e ele convidou todos os punks para o velório. Durante a cerimônia, discursou sobre a morte e o sentido da vida e falou que Cristo também não se enquadrava nos moldes de sua era: confrontava os governantes corruptos e não tinha medo de falar a verdade. Os punks adotaram Jesus Cristo como novo líder do movimento e hoje formam uma comunidade cristã punk. 
 
Uma característica marcante dos povos das cidades é a tribalização, que surge para suprir uma necessidade humana básica — a de viver em comunidade, fugindo da despersonalização. Assim, as pessoas se organizam em tribos, em sua maioria de contracultura: hippies, punks, skatistas, grafiteiros e outros. Esses movimentos, além de um gosto por algo em comum, como esporte, música ou insatisfação com as culturas opressoras do mundo, questionam os padrões estabelecidos, sejam eles religiosos, políticos, familiares, locais ou globais. Militam contra o consumismo, a alienação, a cultura de massa e a concentração de renda. Valorizam a sustentabilidade, a justiça e a busca pelo transcendente.

Em geral as “tribos” não têm aversão a Deus, mas às igrejas e seus féis. Eles costumam ter uma imagem negativa do que é ser um cristão. Porém, quando percebem que estão em um ambiente que não lembra a igreja nem os crentes clássicos, se sentem mais abertos e à vontade para ouvir e falar sobre Deus. Temos incorporado isso em nosso trabalho. Pastoreei uma igreja em que púlpito é feito de caixotes de feira, os bancos feitos de pneu e os instrumentos musicais feitos de lixo. A falta de recursos não é empecilho — o segredo é tirar água da pedra. O número de travestis, metaleiros, e toda sorte de sobreviventes do submundo que já passaram por alguma igreja é altíssimo. Então, todo trabalho consiste em re-evangelizar, de forma que Cristo seja apresentado, dessa vez como amigo.

Os nichos definem nosso modo de vida. Sociólogos e antropólogos gostam de se utilizar da expressão “tribo”, para especificar tipos de nichos psicográficos urbanos. Chamar um jovem urbano simplesmente de jovem pode não identificar, de fato, este jovem. Temos que perceber em qual “tribo” ele se encaixa. Tem pra todos os gostos: clubbers, grafiteiros, darks, punks, grunges, góticos, funks, torcedores, heavies, breakers, roqueiros, rappers, headbangers, night rollers, iguaboys… pra ficar em alguns tipos.

Um nicho se constrói com a formação cultural do indivíduo. Acima falamos de tribos urbanas, mas nos interiores também encontramos outras tribos, que advêm de uma cultura diferente. Essa formação cultural é formada a partir de estilos de vida (suas atividades, interesses e opiniões), de atitudes em frente aos temas cotidianos, personalidades passadas de geração em geração.

O marketing encara isto como a grande base estratégica de suas operações. A segmentação de mercado é a área estratégica do marketing que busca satisfazer necessidades e desejos de clientes, de acordo com o segmento e nicho no qual pertencem. Se antigamente era difícil ver mais de duas variedades de um mesmo produto, hoje os mais diversos nichos fazem com que as empresas tenham portfólios cada vez maiores de marcas. Um produto alimentício genérico de antes hoje tem versões light,
 diet, sem lactose, com adição de vitaminas, com mais ômega-3, com sabores diversos ou com personagens do seu filme favorito. Você compra aquele produto que mais é adaptado ao nicho de mercado no qual faz parte.

E poderia o mundo dos nichos, o mundo das tribos, impactar a nossa vida em igreja? A minha primeira resposta é: se isso tem impactado todos os aspectos cotidianos da vida humana, logicamente que há, sim, um impacto nas atividades espirituais. Sobretudo missionárias. Por muito tempo, o evangelismo teve sua fórmula, quase única, de procedimentos e operação. Fato é que ele funcionou muito bem e continua funcionando em diversos tipos de cenários. Mas não podemos nos esquecer de que há um enorme grupo de nichos onde há dificuldades de se atingir pelo meio tradicional de evangelismo.

Dá pra se listar diversos exemplos aqui de nichos. Os próprios nichos de jovens urbanos que mencionei no segundo parágrafo. Ou o nicho dos workaholics. Acadêmicos de alto nível. Pessoas de mente secularizada. Grandes empresários ou pessoas do mundo corporativo. Celebridades do mundo artístico. Marginalizados. A lista é grande e tende a crescer, cada vez mais que vai se firmando a sociologia moderna de individualidade coletiva.

Parece óbvio que as condições de se alcançar nichos muito específicos de pessoas com abordagens tradicionais não é eficaz. É certo que alguns grupos nem em igrejas tradicionais entrariam, outros não gostariam nem de ver uma bíblia sendo aberta em sua frente. Isto é, sem dúvida, um tremendo obstáculo para a igreja cristã no século XXI.

Vejo com bons olhos as iniciativas bem sucedidas de atingimento de nichos específicos que tem se apresentado dentro da Igreja Adventista. Os centros de influência, os espaços Novo Tempo, congregações como a Primeira Essência e a Nova Semente são alguns exemplos de como se pode chegar à pessoas que, talvez, nunca se interessariam pelo modo tradicional de se fazer evangelismo. Louvo a Deus pelas mentes que trabalham e incentivam estes ministérios por todo o nosso território.

O cuidado que temos que ter, como igreja, é o mesmo que as organizações que entenderam o novo mundo dos nichos e tribos tiveram. A abordagem pode até ser diferente, mas o conteúdo deve ser o mesmo, de igual qualidade e de propósito inabalável. Só assim uma ideia, uma atitude ou um produto, apresentados para nichos diferentes, se sustentam e se desenvolvem. Não podemos abdicar dos nossos preceitos, doutrinas e bases para apresentarmos nosso principal tema: o amor e a graça infindável de Jesus Cristo.

Claro que qualquer novidade pode causar estranheza. Você, que faz parte de um nicho, pode não se sentir atraído por algum novo modo de se proceder evangelisticamente. Mas com certeza ele fará todo o sentido para a tribo no qual ele foi pensado e trabalhado. Não cabe a nós julgar como o outro recebe o evangelho. Se tornar um opositor de um destes ministérios não é ruim apenas para tal projeto, mas para a unidade da igreja. Afinal, Cristo convida todos para irem a ele, e não apenas alguns (Mateus 11.28).

A ideia de levar o Evangelho de maneira contextualizada a todos os brasileiros rompe as barreiras do passado e torna cada vez mais necessário um ministério que fale a língua daquele que é alvo do amor de Deus. Roupas rasgadas, brincos e tatuagens aos poucos vão deixando de ser empecilhos para a aproximação dos cristãos. A sociedade continua desafiando a igreja quanto à contextualização de sua mensagem, assim como na época de Paulo. Estes são os desafios que Paulo enfrentou em seu tempo. Em nosso tempo há semelhantes desafios, dos quais não podemos fugir nem negligenciar o dever e as oportunidades de apresentar o Evangelho de forma contextualizada para quem vive nesse ambiente de contracultura.  Vivemos num país livre e globalizado no qual tais manifestações culturais se misturam com aquilo que tínhamos como tradicional e aceitável pelos mais conservadores.  O IDE de Jesus em Mateus 28.10-20 inclui todos, em todas as épocas e em todos os lugares.   

Qualquer reflexão ou ação evangelizadora, transcultural ou não, deve levar em consideração as mudanças que estão acontecendo ao nosso redor e que afetam a todos nós, assim como as instituições, sejam elas eclesiásticas ou não, nas quais estamos envolvidos. Todos os que se interessam pela evangelização devem prestar atenção ao cenário que se forma, no qual os atores são as ovelhas sem pastor que estão sendo “horrendamente tatuadas pelas complexidades” dos dias em que vivemos.
Se você quer envolver nessa obra evangelizadora, comece com:
• amar a cidade.
• descobrir os valores da cidade:
• entender o jeito da cidade.
• entender a linguagem e os símbolos da cidade.
• ir ao encontro:
• criar uma mística própria da cidade,
• acolher os que sofrem na cidade.
•desenvolver o exercício da cidadania.
• valorizar, incentivar
• tornar uma igreja mais extrovertida,
• acreditar no aspecto evangelístico da Igreja.
• criar organismos
• valorizar a evangelização ambiental

Infelizmente no meio cristão ainda existe algo chamado preconceito, ou ainda outro fator chamado medo do diferente; medo de se aproximar, talvez por não saber em exatamente por onde devam começar o diálogo com pessoas que não lhes são “comuns”. E infelizmente, estes fatores têm prejudicado o avanço da igreja com relação a Missões Urbanas. Quando dizemos que sentimos compaixão pelas almas, precisamos entender que esta compaixão não deve estar restrita apenas àqueles que são alfabetizados, que têm emprego, que têm uma casa para morar, que realmente podem dizer que têm um Lar- uma família, que se vestem e falam como nós, que são consideradas como “pessoas comuns” pela sociedade; mas estendida a todo o mundo.
E quanto ao que devemos falar, é certo que o Espírito Santo nos dá a palavra na boca,mas também lemos na Bíblia que devemos nos apresentar a Deus como obreiros que não têm de que se envergonhar e que manejam bem a Palavra da Verdade. Portanto, além de querermos evangelizar, além de orarmos antes de sair ao campo, devemos também buscar capacitação, não apenas espiritual.
 

Leia este trecho imaginando cada um desses grupos e busque sentir compaixão por eles: Quando Jesus disse “Ide, pregai o Evangelho a toda a criatura” ele está dizendo para nós: “Ide, pregai o Evangelho aos pobres, aos ricos, aos milionários, aos homossexuais (gays e lésbicas), aos drogados (em drogas legais e ilegais), aos viciados em jogo (apostas e eletrônicos), aos que foram abandonados em azilos pela própria família, aos presidiários, aos mendigos, às prostitutas e prostitutos, aos favelados, (pessoas de bem e marginais que vivem nas favelas) aos hospitalizados, aos atletas, aos sedentários, aos circenses, aos turistas, aos indígenas, aos empresários, aos cultos, aos analfabetos, aos sertanejos, e também aos diversos grupos que vivem nas grandes Metrópoles, aos Emos, aos hippies, aos ciganos, aos surfistas, aos bad boys, às patricinhas, aos mauricinhos, aos viciados em Shopping Centers, aos góticos, aos Nerds, aos Hip hoppers, aos punks, aos grafiteiros, aos Skinheads (os carecas brasileiros), aos Skatistas, aos metaleiros, aos roqueiros, aos reguerios, aos forrozeiros, aos pagodeiros, aos cirandeiros, aos baladeiros, etc…

Você já parou para pensar na diversidade de pessoas que estão aí sedentas de salvação? Como está a igreja para receber estas pessoas e para acompanhá-las de forma eficaz e proveitosa? Como será que os irmãos da sua igreja e da minha igreja reagiriam diante de cada uma destas pessoas, principalmente das que vêm de tribos urbanas, que usam roupas e acessórios extravagantes e bem diferentes do que estamos acostumados a conviver?

Devemos reconhecer que falta muito a nós para estarmos apt
os para tanto. Pois não bastaria dizermos que as receberíamos numa maior, porque não é bem assim; estamos falando aqui de realidades totalmente diferentes, sem falar dos diferentes problemas que cada uma delas traz , de marcas diferentes deixadas por diversos sofrimentos, opressões psicológicas, problemas de relacionamento com as suas famílias, muitas vezes por não aceitarem o modo de vida que escolheram (embora tenham sido más escolhas), da dificuldade que elas terão para se adaptarem a um grupo novo, tão diferente delas. É muito importante que se levante este questionamento, pois creio que já está mais do que na hora de a igreja procurar se especializar a esse respeito, buscando mais Graça, enchimento do Espírito Santo, conhecimento, tanto bíblico, quanto científico, psicológico, sociológico, cultural, enfim, para obtermos sucesso no Evangelismo, e não apenas no Evangelismo, mas principalmente durante todo o tempo a partir da conversão destas pessoas. Não adianta realizarmos mega eventos, onde muitas pessoas provenientes dos grupos que mencionei, principalmente das tribos urbanas vêm até à frente para receber oração, se depois, por falta de um bom preparo, não saberemos o que fazer para com elas.

Precisamos despertar para esta necessidade da igreja! A igreja precisa avançar ainda mais contra o inferno cujas portas não prevalecerão contra ela! Mas, assim como o Espírito Santo falou à igreja em Antioquia “Separai-me a Paulo e a Barnabé para uma obra que os tenho designado” precisamos, como igreja do Senhor, diante deste contexto em que estamos inseridos, buscarmos capacitação para cumprirmos a Missão a qual o Senhor nos designou em Mateus 28. 16-20. É bem verdade que Deus capacita ao que chama, mas é também verdade que ele se utiliza dos recursos dos quais pudermos dispor para, por meio deles nos tornar aptos a realizar a sua Obra de maneira mais eficaz, para a glória do Seu Nome.

Preguemos o Evangelho genuíno de Cristo, dizendo que pecado É pecado e proclamemos a Verdade a TODOS, independente de sua situação ou tribo (“Todos pecaram” Rm 3.23).

Precisamos refletir se estamos devidamente preparados para falar com estas pessoas, não aquilo que gostariam de ouvir, mas o que Deus quer que elas escutem, de forma sábia; sem agredí-las, nem depreciá-las. Pois o Senhor Jesus sabia como se aproximar de cada pessoa, e utilizava de vários estilos literários: Parábolas, fatos do cotidiano daquelas pessoas, enfim, a sua mensagem era a verdade contextualizada, ele falava de maneira que as pessoas compreendessem e fossem tocadas e transformadas. Todos os salvos que compõem a igreja do Senhor devem ter esta preocupação, tanto em pregar por onde andarem, tanto em acompanhar de forma mais direta e efetiva estas pessoas também dentro das paredes do templo, pois a obra quem faz é o Espírito Santo, mas somos seus instrumentos aqui para conduzi-las à Verdade que é Cristo.

ORE por cada um destes grupos, peça a Deus que encha o seu coração de amor e compaixão, interceda por estes grupos. Prepare-se, aproxime-se deles, diga para elas que Jesus as ama; mas faça algo mais, exponha a Palavra de Deus de forma a mostrá-la a sua real condição diante de Deus, sem ofendê-las, as conduza a achegarem-se a Deus, e, tendo feito isso, não as deixe, mas forme um grupo de irmãos capacitados, aptos para um acompanhamento, o qual não é por um determinado período, mas sempre; e assim, você terá cumprido eficazmente a sua Missão.


Referencial Bibliográfico:

Livro “O Tempo das Tribos”, do sociólogo Michel Maffesoli – Em PDF. Clique aqui, para ler este e-book


Leia mais

  1. Quatro Amigos, Uma Fé: quando a igreja carrega pessoas até Jesus
  2. A presença que vence o isolamento
  3. Uma Nova Geração de Pais
  4. Quando o Amor Vence a Distância: O reencontro que cura pais, filhos e famílias pela graça de Deus
  5. Nada é difícil demais para Deus: 3 Passos para ver milagres