Como ouvirão, se não há comunicação?

  • 24/11/2025

A responsabilidade dos pregadores em comunicar a Palavra ao seu tempo

Artigo publicado no Jornal Luz nas Trevas – dezembro de 2025  – 

Ouça o podcast do pastor Elton Melo, sobre este artigo

A pergunta de Paulo ecoa com força ainda hoje: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10.14). Esse chamado urgente expõe uma verdade simples, porém profunda: a fé nasce quando a Palavra é comunicada de forma que possa ser ouvida, compreendida e acolhida. Portanto, comunicar não é apenas falar; é fazer-se entender.

Contudo, à medida que avançamos no século XXI, torna-se evidente que comunicar bem é mais desafiador do que nunca. Vivemos num tempo marcado pela pós-modernidade, pela fragmentação das verdades, pela linguagem líquida e pela disputa constante pela atenção. Nesse cenário, a responsabilidade dos pregadores e missionários cresce exponencialmente. Afinal, a mensagem do Evangelho é eterna, mas os ouvintes vivem em um mundo diferente daquele de décadas atrás. Assim, se desejamos que “ouçam”, precisamos compreender como se comunicam, como pensam e como processam o que escutam.

1. A comunicação no nível do ouvido – clareza que conduz à compreensão

O primeiro nível da comunicação é o mais básico: o ouvido. Entretanto, embora seja o mais simples, é aqui que muitos tropeçam. Isso porque falar não é o mesmo que comunicar. Jesus tinha consciência disso e frequentemente dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mateus 13.9). Ele reconhecia que a audição biológica não garante compreensão espiritual.

Assim, comunicar ao ouvido significa considerar a linguagem, o ritmo, o estilo e a forma. Não se trata de reduzir o Evangelho, mas de remover obstáculos desnecessários para que ele seja compreendido. Pregadores eficazes aprendem a traduzir, não a diluir. Aprendem a contextualizar, não a comprometer a verdade.

Quando Paulo pregou no Areópago (Atos 17.22-31), ele não usou citações veterotestamentárias, pois seus ouvintes não tinham essa referência. Em vez disso, iniciou com aquilo que eles conheciam. Ele encontrou um ponto comum. Portanto, comunicar ao ouvido é compreender que a mensagem é imutável, mas os ouvidos mudam.

2. A Comunicação no nível do coração – A verdade que toca e transforma

Depois do ouvido, a Palavra precisa chegar ao coração. Afinal, a fé não nasce apenas da compreensão intelectual, mas do encontro espiritual. O salmista afirma: “Escondi tua palavra no meu coração para não pecar contra ti” (Salmo 119.11). A comunicação que ignora o coração torna-se fria, mecânica e distante.

Nesse sentido, comunicar ao coração exige empatia. O pregador precisa perceber dores, dúvidas, medos e esperanças do seu tempo. Em outras palavras, antes de pregar, ele precisa ouvir. E quando ouve, ele aprende a falar de forma que realmente alcance vidas.

Jesus fez isso repetidas vezes. Ele tocava leprosos, chorava com amigos, conversava com mulheres excluídas, sentava-se à mesa com pecadores. Sua comunicação tocava não apenas os ouvidos, mas as emoções. Ele falava com verdade, mas também com ternura. Ele denunciava o pecado, mas acolhia o pecador. Esse equilíbrio é essencial para quem deseja comunicar a Palavra de maneira transformadora.

Assim, comunicar ao coração é apresentar a verdade com sensibilidade, de modo que ela encontre espaço, aqueça a alma e produza fé.

3. A comunicação no nível da ação – a palavra que conduz à obediência

Contudo, a comunicação bíblica não termina na compreensão nem na emoção; ela avança até a ação. Jesus declara: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lucas 11.28). A pregação, portanto, não busca meros ouvintes, mas discípulos.

A comunicação voltada à ação considera que cada sermão precisa apontar caminhos práticos. Além disso, reconhece que a pós-modernidade é marcada pela velocidade e pela superficialidade, e justamente por isso a igreja precisa oferecer profundidade aplicada. A fé cristã é vivida no cotidiano, e o pregador é um facilitador de transformação.

Na obra missionária, isso se torna ainda mais evidente. Missionários eficazes compreendem que a transformação cultural acontece quando a Palavra é vivida, não apenas ouvida. Assim como Paulo orientou Timóteo: “Prega a palavra… corrige, repreende, exorta, com toda paciência e doutrina” (2 Timóteo 4.2). Cada dimensão dessa instrução aponta para uma comunicação que produz frutos concretos.

4. A comunicação naseada no ouvinte – uma premissa bíblica

Um erro comum é acreditar que comunicar bem depende apenas de quem fala. Contudo, biblicamente, a comunicação começa no ouvinte. Jesus adaptava sua linguagem conforme o público: com fariseus Ele falava em confronto; com os discípulos, em ensino profundo; com multidões, por parábolas. Isso mostra que a comunicação eficaz nasce do amor ao próximo. Quem ama se esforça para ser entendido.

Portanto, comunicar bem exige observar o nível de maturidade espiritual, o contexto cultural, a formação intelectual e até as feridas emocionais dos ouvintes. Não se trata de relativizar a verdade, mas de abrir caminhos para que ela seja recebida.

5. Desafios e oportunidades na pós-modernidade

É verdade que a pós-modernidade impõe desafios: relativismo, ceticismo, superficialidade digital. Contudo, há também oportunidades evidentes. Nunca foi tão fácil alcançar pessoas, conectar-se rapidamente e gerar diálogos. Se a igreja compreender seu tempo, poderá comunicar com mais força e alcance do que nunca.

Enquanto alguns se intimidam com as mudanças culturais, outros percebem que o Evangelho continua sendo “o poder de Deus para a salvação” (Romanos 1.16), independentemente da época. Por isso, pregadores e missionários precisam aprender a ser pontes entre a eternidade e o agora.

Conclusão – uma Igreja que comunica para transformar

Em resumo, comunicar bem é um ato de amor, sensibilidade e fidelidade. Para que “ouçam”, precisamos falar ao ouvido com clareza, ao coração com ternura e à ação com sabedoria prática. E, acima de tudo, comunicar com base no ouvinte, como fez Jesus.

Se quisermos que esta geração ouça, creia e seja transformada, precisamos assumir a responsabilidade de comunicar a Palavra ao nosso tempo. Afinal, como ouvirão… se não houver quem comunique?


Elton Melo é pastor titular da Primeira Igreja Batista Independente de Curitiba desde 12/12/2015. Foi presidente da Editora Batista Independente (2011 a 2022), atualmente exerce a presidência da ASEC – Associação de Editores Cristãos.

Autor: Elton Melo