Contribuir para a obra de Deus é muito mais do que entregar dinheiro à igreja. Na perspectiva bíblica, a contribuição é uma expressão de fé, gratidão, adoração e compromisso com a missão. Por isso, falar sobre dízimos e ofertas não deveria começar pelo orçamento da igreja, mas pelo senhorio de Deus sobre tudo o que somos e possuímos.
Davi expressou essa verdade de maneira admirável ao orar: “Porque tudo vem de ti, e das tuas mãos to damos” (1Cr 29.14). O Salmo 24.1 reforça o mesmo princípio: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” Portanto, a contribuição cristã nasce do reconhecimento de que somos administradores, e não proprietários absolutos, dos recursos que Deus colocou em nossas mãos.
O dízimo como princípio de reconhecimento
A palavra dízimo significa “décima parte”. Antes mesmo da Lei de Moisés, Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque (Gn 14.18-20), e Jacó declarou que separaria para Deus a décima parte de tudo o que recebesse (Gn 28.20-22). Mais tarde, no contexto da aliança de Israel, o dízimo passou a ter função definida na manutenção do culto, no sustento dos levitas e no cuidado dos necessitados (Lv 27.30; Nm 18.21; Dt 14.22-29).
Malaquias 3.10 registra uma das passagens mais conhecidas sobre o tema: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro.” No contexto do profeta, a infidelidade financeira fazia parte de uma infidelidade espiritual mais ampla. A questão, portanto, não era apenas dinheiro, mas a relação do povo com Deus.
O que muda no Novo Testamento?
No Novo Testamento, Jesus menciona o dízimo ao confrontar os fariseus, que eram rigorosos na contribuição, mas negligenciavam “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23.23). O ensino de Cristo mostra que a prática externa jamais pode substituir um coração transformado.
Nas cartas apostólicas, a ênfase recai sobre uma contribuição planejada, proporcional, generosa e voluntária. Paulo orienta os cristãos a separarem sua contribuição de acordo com a prosperidade recebida (1Co 16.2). Em 2 Coríntios 8–9, ele apresenta um dos mais completos ensinos do Novo Testamento sobre generosidade. A contribuição deve nascer da graça, e não da coerção:
“Cada um contribua segundo propôs no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.” (2Co 9.7)
Isso significa que a generosidade cristã não deve ser movida por medo, culpa ou manipulação. Ao contrário, ela é resposta à graça de Cristo. Paulo estabelece esse fundamento em 2 Coríntios 8.9: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.”
O dízimo ainda é obrigatório para o cristão?
Entre teólogos evangélicos há diferentes entendimentos sobre a aplicação do dízimo na nova aliança. Alguns o veem como um princípio permanente e um ponto de partida para a contribuição cristã. Outros entendem que o Novo Testamento não estabelece os dez por cento como uma obrigação legal para a igreja.
D. A. Carson, ao tratar dessa questão, observa que o Novo Testamento não repete o dízimo como uma exigência legal nos mesmos moldes da aliança mosaica. Ao mesmo tempo, ele destaca que 2 Coríntios 8–9 apresenta um padrão de generosidade que pode ir muito além de uma porcentagem fixa. A questão central deixa de ser simplesmente “quanto sou obrigado a dar?” e passa a ser “como a graça de Cristo transforma a maneira como uso os meus recursos?”
Craig Blomberg, em sua teologia bíblica sobre posses e riqueza, também destaca que o uso cristão dos recursos deve ser interpretado à luz da mordomia, da generosidade e da responsabilidade diante de Deus. Além disso, estudos contemporâneos sobre 2 Coríntios 8–9 mostram que Paulo relaciona a contribuição com graça, comunhão, cuidado com os necessitados e fidelidade ao Evangelho.
Contribuir é participar da missão
Os recursos da igreja têm finalidade concreta. Por meio dos dízimos e das ofertas, a comunidade cristã sustenta o ministério, cuida de pessoas, investe no ensino da Palavra, mantém sua estrutura, apoia missionários e amplia sua capacidade de alcançar vidas.
O Novo Testamento reconhece, inclusive, o princípio do sustento daqueles que trabalham no ministério. Paulo escreve: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino” (1Tm 5.17-18). Em Filipenses 4.15-18, o apóstolo também agradece pelo apoio financeiro recebido para a missão, descrevendo a oferta dos irmãos como “aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus”.
Assim, quando um cristão contribui, ele participa daquilo que Deus está realizando por meio da igreja. Talvez ele não esteja em cada atividade missionária, em cada atendimento pastoral, em cada ação social ou em cada sala de ensino. Entretanto, sua fidelidade ajuda a tornar tudo isso possível.
O perigo de transformar contribuição em negócio
É importante, porém, fazer uma distinção necessária. A Bíblia não autoriza a igreja a transformar a contribuição em mecanismo de barganha com Deus. A lógica de “dar para receber mais dinheiro” distorce o ensino apostólico. Em 2 Coríntios 9, a provisão de Deus tem como finalidade capacitar o cristão para “toda boa obra” e para que ele seja ainda mais generoso (2Co 9.8-11).
Portanto, o dízimo e a oferta não compram bênçãos, salvação ou favores de Deus. Nós contribuímos porque já fomos alcançados pela graça. A verdadeira generosidade começa quando o coração compreende que tudo o que temos pertence ao Senhor.
Uma disciplina espiritual de gratidão
Para muitos cristãos, separar regularmente o dízimo é uma disciplina saudável porque estabelece prioridade, constância e gratidão. Em vez de oferecer a Deus apenas o que sobra, a pessoa organiza sua vida financeira reconhecendo Deus em primeiro lugar.
Ao mesmo tempo, ninguém deveria usar o dízimo como teto para a generosidade. A pergunta cristã não deve ser apenas: “Já entreguei dez por cento?” Mas também: “Estou administrando tudo o que tenho de maneira coerente com o Reino de Deus?”
Contribuir, portanto, não é perder. É participar. É adorar com os recursos. É investir na missão. É cuidar de pessoas. É reconhecer que Deus continua sendo o provedor e que nós somos apenas mordomos daquilo que Ele nos confiou.
Dizimar é reconhecer. Ofertar é participar. Contribuir é servir.
Referências bíblicas
Gênesis 14.18-20; Gênesis 28.20-22; Levítico 27.30; Números 18.21; Deuteronômio 14.22-29; 1 Crônicas 29.14; Salmo 24.1; Malaquias 3.10; Mateus 6.21; Mateus 23.23; 1 Coríntios 16.2; 2 Coríntios 8–9; Filipenses 4.15-18; 1 Timóteo 5.17-18.
Referências teológicas
- CARSON, D. A. Are Christians Required to Tithe? Christianity Today, 1999.
- CARSON, D. A. How to Give Money Away. Exposição de 2 Coríntios 8–9.
- BLOMBERG, Craig L. Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology of Possessions. InterVarsity Press.
- HABARUREMA, Viateur. Christian Generosity According to 2 Corinthians 8–9: Its Exegesis, Reception, and Interpretation Today in Dialogue with the Prosperity Gospel in Sub-Saharan Africa.
Sobre o autor
Elton Melo é pastor, economista, teólogo, psicanalista e professor universitário. Atua no ministério pastoral, no ensino e na produção de conteúdos voltados à fé cristã, vida prática, família, liderança e crescimento espiritual. É autor e editor do portal Alcance Vitória, onde publica estudos bíblicos, artigos e reflexões com o propósito de fortalecer a igreja e contribuir para uma fé cristã madura, bíblica e aplicada ao cotidiano.
